Maria da Luz Rosinha liderou a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira entre 1998 e 2013, atravessando diferentes ciclos económicos e políticos ao longo de mais de uma década à frente do município. Na fase final do seu mandato, coincidiu com o período da troika, mas, ao contrário de outras autarquias, o impacto financeiro direto foi limitado.
“A Câmara de Vila Franca de Xira era uma Câmara muito estável do ponto de vista financeiro”, recorda. Essa estabilidade, construída ao longo dos anos, permitiu que o município enfrentasse as restrições impostas ao poder local sem ruturas significativas na sua gestão. Os orçamentos eram preparados com antecedência e as obras planeadas de forma faseada, o que garantiu alguma previsibilidade mesmo num contexto nacional marcado pela incerteza.
A entrada da troika obrigou, ainda assim, a uma maior contenção. A prioridade passou por evitar despesas que não pudessem ser cumpridas, reforçando uma gestão prudente e ajustada às novas regras. “Tivemos alguma contenção e evitámos fazer despesas que depois não pudéssemos suportar”, explica. Essa capacidade de adaptação assentou numa base financeira sólida, mas também numa cultura de planeamento que permitiu absorver o impacto das restrições sem comprometer a atividade municipal. Ao contrário de outros concelhos, onde a crise levou à suspensão de investimentos ou a dificuldades de tesouraria, Vila Franca de Xira conseguiu manter o seu nível de intervenção.
Mas se o município conseguiu preservar estabilidade, o mesmo não aconteceu com as famílias. Para Maria da Luz Rosinha, o verdadeiro impacto da troika fez-se sentir fora da Câmara, no dia-a-dia das pessoas, e foi aí que a autarquia procurou concentrar a sua ação. “As dificuldades foram mais para as famílias”, afirma. O aumento do desemprego, a perda de rendimento e a redução do poder de compra tiveram efeitos diretos na vida da população, criando um ambiente social exigente para quem estava no terreno.
Perante essa realidade, a Câmara procurou adotar medidas que ajudassem a aliviar a pressão. Entre elas, destaca-se a contenção ao nível de impostos e taxas municipais, traduzindo-se num apoio indireto às famílias num momento particularmente difícil. “Houve contenção de impostos, o que acabou por ser um apoio direto às famílias”, recorda, sublinhando que o papel do poder local passa também por encontrar soluções ajustadas às circunstâncias de cada momento.
A proximidade com a população foi determinante para essa resposta. O contacto direto permitia perceber, sem intermediários, o impacto real da crise. “As pessoas queixavam-se de não ter dinheiro para os bens essenciais”, lembra. Essa perceção, construída no terreno, leva hoje a antiga autarca a estabelecer um paralelismo claro entre o período da troika e a realidade atual. Passados mais de dez anos, considera que as dificuldades continuam presentes, embora com causas diferentes.
“Hoje as dificuldades são outras, mas refletem-se da mesma maneira”, afirma. O aumento do custo de vida, especialmente ao nível da alimentação e da energia, voltou a colocar pressão sobre os rendimentos, criando um cenário que, em vários aspetos, recorda o passado.
A antiga presidente vai mais longe e utiliza uma expressão que resume essa leitura: “Temos uma espécie de troika permanente”. Para Maria da Luz Rosinha, fatores como a guerra, a instabilidade internacional e a subida generalizada dos preços têm vindo a produzir efeitos semelhantes aos de uma crise económica clássica.
Neste contexto, defende que o papel do poder local continua a ser essencial. A proximidade aos cidadãos permite uma leitura mais rápida dos problemas e uma maior capacidade de resposta, mesmo quando as soluções dependem de vários níveis de decisão. “O poder local conhece os problemas e sabe encontrar soluções”, sublinha, reforçando a importância das autarquias como primeira linha de intervenção junto das populações. Ao mesmo tempo, deixa um alerta para a necessidade de maior atenção por parte dos decisores nacionais, considerando que nem sempre existe uma resposta adequada à realidade vivida no terreno.
Durante o seu mandato, a estabilidade financeira da Câmara permitiu que não fossem deixadas obras estruturantes por concretizar. “Não creio que tenhamos deixado nada para trás”, afirma, reforçando a ideia de que o município conseguiu manter o seu percurso de desenvolvimento mesmo num período exigente.
Essa capacidade de planeamento e execução foi, na sua visão, determinante para atravessar a crise sem comprometer o futuro do concelho, permitindo que o município entrasse nos anos seguintes com condições para continuar a crescer.
Hoje, já afastada da presidência, mas mantendo uma ligação ativa à vida pública, Maria da Luz Rosinha continua a olhar para o poder local como um espaço essencial de resposta às necessidades das populações. “Os autarcas são pessoas que arregaçam as mangas e estão ao lado das pessoas para resolver os problemas”, conclui, numa mensagem de confiança no papel das autarquias, mesmo em contextos adversos.
“Uma troika permanente”: o paralelismo com os dias de hoje
Para Maria da Luz Rosinha, o período da troika não é apenas um capítulo fechado. A antiga presidente da Câmara de Vila Franca de Xira estabelece um paralelismo claro entre as dificuldades sentidas nessa altura e aquelas que hoje afetam as famílias.
Apesar de o contexto ser diferente, o impacto no dia-a-dia acaba por ser semelhante. Se na altura a pressão vinha das medidas de austeridade, hoje resulta de fatores como a guerra, o aumento dos combustíveis e a subida generalizada dos preços. “Hoje as dificuldades são outras, mas refletem-se da mesma maneira”, considera, sublinhando que o problema continua a estar na perda de poder de compra e na dificuldade em garantir o essencial.
A alimentação surge como o principal exemplo dessa realidade. O aumento do custo dos bens básicos tem vindo a agravar a situação de muitas famílias, criando um cenário que, na sua leitura, ultrapassa em alguns aspetos o vivido durante a troika. “Quando vemos o aumento do cabaz alimentar, percebemos que afinal a troika não foi a pior fase”, afirma, apontando para o peso crescente das despesas essenciais no orçamento familiar.
Neste contexto, defende que o papel do poder local continua a ser determinante. A proximidade às populações permite identificar problemas e encontrar soluções mais ajustadas à realidade de cada território.
Ao mesmo tempo, deixa um alerta para a necessidade de respostas mais eficazes por parte dos vários níveis de governação, sublinhando que não é possível deixar para trás quem mais precisa.
A ideia resume-se numa expressão que utiliza para caracterizar o momento atual: uma “troika permanente”, em que as dificuldades persistem, ainda que com origens diferentes.




