Há bairros que são apenas um conjunto de prédios. E há outros que ficam para sempre colados à pele de quem lá cresceu. No Carregado, a urbanização da Barrada foi durante anos mais do que um lugar para viver. Foi um mundo inteiro. E para Fábio Galhanas continua a ser, sobretudo, casa.
Foi ali, entre ruas de terra batida, bolas a rolar e bicicletas sem capacete, que o autor construiu as memórias que agora transporta para o livro Dallas – O Meu Bairro. Um regresso a uma infância feita de liberdade, de amizades improváveis e de dias que pareciam não ter fim.
O nome não surgiu por acaso. “Dallas” era a forma como muitos miúdos se referiam à zona, numa espécie de código partilhado que nasceu nos anos 80, inspirado pela série televisiva com o mesmo nome. A popularidade foi tal que acabou por dar nome a um videoclube do bairro e, com o tempo, à própria identidade daquele pedaço do Carregado. Dizer que se era “de Dallas” tinha, como o próprio recorda, uma certa pinta, quase uma afirmação de pertença a um território com vida própria. Mas o que Fábio Galhanas quis guardar não foi apenas o nome. Foi tudo o que ele representava.
Hoje com 35 anos, recua aos tempos em que sair de casa significava ganhar o dia. “A parte mais importante era ir para a rua”, conta. Era aí que tudo acontecia. Jogos de futebol improvisados, desafios entre bairros, corridas de bicicleta, berlindes e as inevitáveis brincadeiras que nasciam do simples desejo de fazer rir o outro. A rua era o centro de tudo, e a liberdade um dado adquirido, quase inconsciente.
Começou cedo. Tinha seis anos quando desceu pela primeira vez para se juntar aos outros miúdos. A partir daí, criou-se uma rotina que marcou toda uma geração. Dias inteiros passados cá fora, muitas vezes até anoitecer, sem relógio nem pressa. O bairro funcionava como um pequeno mundo fechado, onde todos se conheciam e onde havia sempre alguém para brincar. Quando chovia, as consolas serviam de alternativa. Mas eram apenas isso. Um plano B.
Nas férias grandes, esse mundo ganhava ainda outra dimensão. Os dias começavam sem grandes planos e desenrolavam-se naturalmente, quase sempre depois do almoço, quando o calor abrandava e a rua chamava. Jogava-se à bola durante horas, organizavam-se jogos entre bairros e havia sempre espaço para mais uma partida. Quando o futebol cansava, surgiam os berlindes, as voltas de bicicleta pelo bairro, as corridas improvisadas ou as escondidas ao cair da noite, que ganhavam outro encanto quando a luz desaparecia.
Havia também tempo para simplesmente estar. Conversar, rir, inventar jogos, criar pequenas rotinas que se repetiam dia após dia. O importante não era tanto o que se fazia, mas com quem se fazia. E isso bastava para preencher verões inteiros.
Crescer naquele bairro era crescer em comunidade. As mães chamavam os filhos das janelas, os vizinhos conheciam-se pelo nome e os dias eram partilhados quase sem fronteiras. Havia poucos carros, muito espaço e uma sensação de segurança que hoje parece distante. “Essa sensação de liberdade já não existe”, admite, com a lucidez de quem olha para trás sem romantizar em excesso, mas sem esconder a saudade.
No livro, essa vivência surge com humor e ternura. As histórias, muitas delas reais, são contadas com um olhar leve, mesmo quando tocam em episódios menos bons. É uma espécie de comédia do quotidiano, onde cabem personagens que marcaram uma geração e que o autor fez questão de preservar, incluindo os seus nomes, como forma de homenagem. Mais do que inventar, Fábio recorda. E ao recordar, reconstitui um tempo que muitos reconhecem como seu.

A escrita nasceu mais tarde, já em adulto, mas alimenta-se de uma memória que diz ser “muito viva”. Primeiro veio um blog, quase como teste. Um espaço onde começou a partilhar episódios e a perceber que havia ali algo mais do que simples recordações. O feedback foi imediato. Quem lia via-se nas histórias, reconhecia lugares, situações, sentimentos. O passo seguinte foi natural. Dar forma a um livro que, mais do que contar uma vida, recupera uma época.
Um tempo em que o dia começava sem planos definidos e acabava quando a luz já faltava. Em que se combinavam jogos entre bairros e se criavam rivalidades passageiras, sem grande conflito. Em que andar de bicicleta era sinónimo de estatuto e liberdade, e em que os heróis eram muitas vezes os amigos que conseguiam fazer um cavalinho mais longo ou uma jogada mais vistosa. O mundo cabia ali, naquele espaço.
Com o passar dos anos, tudo mudou. O bairro cresceu, encheu-se, tornou-se mais impessoal. Há mais gente, mais carros, mais rotatividade. “As pessoas respeitam-se menos”, observa, com alguma tristeza. Fala de pequenas coisas, como o cuidado com o espaço comum, mas também de algo mais profundo. A perda de ligação entre vizinhos, a dificuldade em criar raízes, a sensação de que tudo é mais passageiro.
Ainda assim, quando regressa ao prédio onde viveu, sente um misto de conforto e saudade. Como se aquele espaço guardasse intacto tudo o que já não se vê. As escadas, as janelas, os pátios continuam a existir, mas o que ali se viveu pertence agora à memória.
Mas é quando olha para as gerações mais novas que a diferença se torna mais evidente. Fábio não esconde alguma preocupação com o rumo que a infância tem vindo a tomar. Para quem cresceu numa realidade de rua, de contacto permanente e de confiança quase instintiva, o presente parece mais fechado, mais condicionado. Os telemóveis e o acesso constante à informação trouxeram vantagens, mas também criaram novas barreiras.
Na sua perspetiva, os miúdos de hoje crescem com mais receios, mais vigilância e menos espaço para errar. A espontaneidade deu lugar a uma certa cautela permanente. Há sempre a sensação de que tudo pode ser registado, partilhado, exposto. E isso, acredita, afeta a forma como se constroem relações. “Hoje é mais difícil confiar”, resume.
Não se trata de uma crítica direta, mas de uma constatação de quem viveu outro tempo. Um tempo em que os perigos existiam, mas eram enfrentados de forma inconsciente, sem a carga de informação e de alerta constante que hoje molda o comportamento. Essa diferença, diz, acaba por retirar aos mais novos a possibilidade de criar laços com a mesma intensidade.
Ainda assim, deixa uma espécie de conselho implícito. Se encontrarem pessoas com quem consigam estabelecer relações verdadeiras, devem agarrar-se a elas. Porque, acredita, são cada vez mais raras.
Talvez seja também por isso que escreveu o livro. Para voltar a esse tempo, ainda que por instantes, e para o guardar. Para si e para os outros. Para que não se perca completamente a memória de uma infância vivida cá fora, em comunidade, com pouco mas com muito.
A receção ao livro tem sido, segundo o autor, positiva. Muitos dos que cresceram no bairro reconheceram-se nas histórias e nas personagens, revivendo episódios que julgavam esquecidos. Outros, mesmo sem ligação direta ao Carregado, encontram paralelismos com a sua própria infância, numa identificação que ultrapassa geografias. O passa-palavra tem sido, aliás, o principal motor de divulgação, com leitores a recomendarem a obra a amigos e conhecidos.
“Dallas – O Meu Bairro” pode ser adquirido diretamente junto do autor, através das suas redes sociais, onde ainda dispõe de exemplares, ou por envio. O livro encontra-se também disponível nas principais plataformas online, como a Bertrand, a Fnac ou o site da editora.
Porque, no fundo, aquilo que se passou naquele bairro não é assim tão diferente do que se viveu noutros. Muda o nome, mudam as caras, mas fica a essência. A infância feita de rua, de amigos e de histórias que, muitos anos depois, ainda sabem a casa.




