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Hospital de Vila Franca promove debate sobre sexualidade na doença oncológica

Apenas em Portugal, entre 2022 e 2025, segundo os dados mais recentes recolhidos pelo Global Cancer Observatory, registou-se um aumento de 1500 casos oncológicos e só em 2025 foram registados mais de 70 mil casos. No entanto, além de todos os aspetos da doença, há sempre um elemento que muitas vezes passa despercebido: a sexualidade. A pensar nisso, o Hospital de Vila Franca de Xira acolheu as “Conversas com Sentido”, com o objetivo de compreender o impacto da doença oncológica na sexualidade e na intimidade do casal.

O dia foi dividido em vários momentos que decorreram ao longo da tarde, desde conversas e atividades conduzidas por médicos e enfermeiros do hospital, que passaram por temas como a sexualidade, bem como os direitos e deveres dos doentes. A médica Catarina Bexiga, uma das responsáveis pela atividade, explica que o interesse pela oncologia surgiu ainda durante a faculdade e que, com o aumento dos casos em doentes jovens, passou também a dedicar-se às questões da sexualidade associadas à doença. “Apesar da sexualidade não dever ter idade, também me foi despertando algum interesse, tendo em conta este contexto”, continua. “É indissociável a sexualidade da pessoa. Depois de um processo de doença é necessário reinventar-se e reinventar a sua relação e intimidade, para um novo normal depois da doença.” Catarina Bexiga considera ser essencial que esta temática seja abordada quer pelos médicos que acompanham os doentes, quer pelos próprios doentes, que muitas vezes nem imaginam ser uma possibilidade.

Segundo a médica, os impactos na sexualidade começam a partir do momento do diagnóstico devido “ao peso psicológico” e depois os próprios tratamentos podem afetar a sexualidade. “Desde a cirurgia, que pode ser mutilante, quer pela quimioterapia, que além dos efeitos secundários diretos no corpo, também vai provocar alterações hormonais.” Catarina Bexigaexplica ainda que a radioterapia, feita a nível pélvico, pode ter consequências na função erétil no homem, na própria lubrificação e pode até induzir uma menopausa na mulher. Por isso, de modo a compreender de que forma os doentes podem adaptar-se à doença sem abdicar da sexualidade, Catarina Bexiga considera atividades como esta essenciais. “Tanto para os médicos, como para outros profissionais de saúde, como enfermeiros, para consciencializar para esta problemática.” A prova de que este era um assunto necessário foi a sala cheia, não só de doentes como de companheiros, “que têm um papel relevante neste cenário”.

Os testemunhos de dois doentes

Além das conversas e atividades dinâmicas, as “Conversas com Sentido” contaram ainda com o testemunho de dois doentes oncológicos, Fábio Freitas e Inês Henriques, que passaram por duas experiências totalmente distintas. Fábio Freitas é doente oncológico e teve uma hemicolectomia, ou seja, a remoção cirúrgica de uma parte do intestino, encontrando-se atualmente na fase final dos tratamentos. A história começou em novembro de 2025, após vários episódios de indisposição e dificuldades em fazer as suas necessidades, que o levaram até às consultas médicas. “Sabemos como está a situação da saúde em Portugal. Estava há dois meses à espera de consulta. Por isso tentei através de uma videoconsulta.”Foi nesse momento que foi transferido para São José com carta registada. Apesar de não terem vaga, encaminharam-no para Vila Franca de Xira. “Em apenas duas semanas estava a ser operado.”

Apesar de ter sido um processo rápido, Fábio salienta que assim foi devido à sua insistência e ao medo de que realmente algo estivesse errado. “Conheço bem o meu corpo e reparei que não era normal. Estava sempre com azia e refluxos, dores de costas constantes que não passavam com massagens.” Depois do diagnóstico, Fábio explica que precisou de recorrer à internet para compreender detalhes que lhe eram explicados na consulta. “Deram-me um papel a dizer que precisava de me proteger ao ter relações, mas não compreendia porquê.” A razão deve-se à medicação que demora a sair do corpo e que, por consequência, também é libertada através do sémen e de outras secreções. “Em Portugal a sexualidade é um tabu e muitas destas questões ficam por esclarecer. As pessoas parecem ter medo de falar de algo que faz parte da vida de toda a gente.”

Já para Inês Henriques, o diagnóstico obrigou-a a lidar não só com a doença, mas também com as alterações na relação com o próprio corpo e na intimidade. Como resume, “a nossa vida é um todo que fica em perspetiva”. No entanto, em todas as consultas, o médico que a acompanhou mostrou-se sempre disponível para responder a todas as suas questões, desde o impacto físico ao impacto emocional. “Todos os anos fazia exames de rotina, desde análises a ecografias, e no ano passado fi-los novamente.”

Mas, ao contrário dos anos anteriores, em 2025 foi detetado um nódulo mamário e daí começou a luta, após o diagnóstico de cancro da mama. “Foi um choque. Acho que é sempre um choque, embora haja sempre uma suspeita.”

Relativamente à sexualidade, Inês explica que as equipas de profissionais de saúde nem sempre têm tempo para abordar estas temáticas e, por isso, considera positivas iniciativas como esta, que além de abordarem temas tabu, criam um espaço onde os participantes podem partilhar as suas experiências.

“Existe uma nuvem negra em volta do cancro e isso não se pode negar. À medida que vamos vivendo o processo, acabamos por desmistificar este caminho. Podemos estar aqui e perceber que não sou a única com esta dúvida e a experiência do outro ajuda-me a superar as dificuldades.”

Apesar de esta ter sido a primeira atividade neste formato, a enfermeira Madalena Van Zeller salienta que nos últimos anos também foram realizadas algumas conversas dedicadas aos doentes ostomizados, ou seja, que possuem um estoma. Agora, com as “Conversas com Sentido”, esta temática foi alargada a todos os doentes oncológicos e aos respetivos parceiros.

Sexualidade tende a ser relegada para segundo plano

Madalena Van Zeller considera que a sexualidade tende a ser relegada para segundo plano durante os tratamentos, uma vez que a prioridade inicial passa pelo controlo da doença e pelo conforto do doente. “A sexualidade é algo que faz parte de nós, mas surge como uma preocupação mais tarde.”

Na sua opinião, a abordagem deve ser feita pelo profissional e, quando a pessoa se sentir confortável, devem ser exploradas e esclarecidas todas as questões que queira colocar. Além disso, considera essencial desmistificar várias ideias. “Uma delas é a ideia de que, por estar doente, a pessoa deixa automaticamente de querer ter relações, o que não é verdade. A sexualidade torna-se uma fase muito importante no pós-tratamento, para conseguir recuperar a relação e a intimidade do casal.”

No final desta atividade, a enfermeira explica que não estava à espera de uma adesão tão grande. “Todos os grupos foram diferentes entre si e muito dinâmicos.” Através das “Conversas com Sentido” surgiram até novas ideias. Uma utente que faz teatro partilhou a possibilidade de criar uma peça que ajude a desmistificar a sexualidade na oncologia. “Ficou comigo, porque é essencial encontrar outras formas de abordar o tema. Agora, a ideia é continuar a apostar em dinâmicas como esta.”

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