As Festas do Colete Encarnado voltaram a fazer de Vila Franca de Xira a capital da tradição ribatejana e a corrida de toiros da Palha Blanco foi, uma vez mais, um dos momentos altos das celebrações. Apesar do intenso calor que se fez sentir, o público respondeu com entusiasmo, compondo uma moldura humana muito interessante e criando um ambiente de grande envolvimento ao longo de toda a tarde.

Como manda a tradição, os campinos marcaram presença tanto na arena como nas bancadas da Palha Blanco, afirmando-se, uma vez mais, como símbolo maior da identidade vilafranquense e da cultura ribatejana. Ao longo da tarde, os artistas prestaram-lhes homenagem, brindando-lhes as respetivas atuações, num gesto de respeito e reconhecimento pelo papel que desempenham na preservação desta tradição. Os campinos retribuíram da mesma forma, lançando os seus característicos barretes verdes e encarnados para a arena durante as voltas dos artistas, num sinal de admiração mútua que voltou a evidenciar a forte ligação entre os artistas e os campinos, dois pilares indissociáveis da identidade taurina de Vila Franca.

João Salgueiro regressava a uma praça onde escreveu alguns dos capítulos mais marcantes da sua carreira. E os regressos, sobretudo quando carregam o peso de uma história tão rica, nunca são fáceis. A primeira atuação não lhe permitiu atingir o nível a que habituou os aficionados, faltando-lhe alguma ligação ao toiro e maior regularidade. Ainda assim, o público da Palha Blanco nunca deixou de acreditar no mestre.
Foi frente ao quarto toiro que surgiu a resposta. Num verdadeiro rasgo de brilhantismo e genialidade, João Salgueiro superou-se e construiu uma lide de enorme personalidade, evidenciando a mestria na escolha das distâncias, o domínio dos tempos e uma forma muito própria de interpretar a lide, impossível de confundir com qualquer outro cavaleiro. Momentos como este recordam que a genialidade, quando existe, justifica sempre o regresso dos mestres. A calorosa volta à arena foi o justo reconhecimento de uma atuação inspirada, capaz de recordar aos aficionados porque João Salgueiro continua a ocupar um lugar de destaque na história do toureio a cavalo. E, acima de tudo, deixou a certeza de que a sua história ainda não está concluída: há páginas em branco que poderão continuar a ser escritas com triunfos, se assim o entender.


João Moura Júnior apresentou-se em Vila Franca com clara ambição de triunfar e encontrou argumentos para o conseguir. É igualmente justo reconhecer que foi o cavaleiro mais afortunado no sorteio, cabendo-lhe o lote de maior qualidade, com especial destaque para o quinto toiro, o melhor exemplar da corrida.

Mas na tauromaquia, a sorte só ganha valor quando é acompanhada de mérito. Moura Júnior soube interpretar na perfeição as virtudes dos seus adversários, tirando o máximo partido de cada investida. Depois de uma primeira lide de bom nível, foi perante o quinto toiro que atingiu o ponto alto da tarde. Com um exemplar bravo, de classe, transmissão e grande mobilidade, construiu uma lide de elevado recorte artístico, onde os ferros se sucederam com emoção, reunião, verdade e excelente colocação. O entendimento entre cavaleiro e toiro foi total, proporcionando um dos momentos mais marcantes da corrida e justificando plenamente as voltas à arena concedidas ao cavaleiro, ao toiro e ao ganadeiro da Condessa de Sobral.

Os Forcados Amadores de Vila Franca voltaram a demonstrar porque continuam a ser uma referência na festa brava. Mais do que as quatro pegas consumadas ao primeiro intento, foi a extraordinária coesão do grupo que voltou a fazer a diferença. No forcado amador, o mérito nunca pertence apenas ao homem da cara; uma pega constrói-se com a entrega, a união e a eficácia de todos os elementos que acompanham a reunião, e foi precisamente isso que o grupo vilafranquense voltou a evidenciar. Guilherme Dotti abriu a tarde com uma pega de enorme qualidade, muito bem apoiado pelo seu irmão, Rodrigo Dotti, cuja ajuda foi determinante para o sucesso da reunião.

Seguiram-se Miguel Faria, Rodrigo Andrade e Rodrigo Camilo, todos a consumarem as respetivas pegas à primeira tentativa. A coesão, a confiança entre os elementos e a qualidade das ajudas foram constantes ao longo de toda a atuação, confirmando que, quando um grupo funciona como um verdadeiro bloco, o resultado só pode ser de excelência. Uma prestação coletiva irrepreensível, justamente reconhecida e aplaudida pelo público.

No capítulo do toureio apeado, Borja Jiménez voltou a confirmar a consistência que o coloca entre os nomes mais sólidos da atualidade. Sem dispor de um lote particularmente fácil, evidenciou recursos técnicos, inteligência e capacidade para resolver cada momento da lide. Foram duas atuações sérias, corretas e de bom nível, talvez sem o brilho necessário para permanecerem na memória dos aficionados, mas sempre pautadas pelo profissionalismo e pelo rigor.

Nas bandarilhas, a quadrilha correspondeu com competência, destacando-se, uma vez mais, João Ferreira. O bandarilheiro mantém o nível de excelência a que habituou os aficionados, deixando dois pares de grande nota, executados com verdade, poder e reunião. Não surpreende, por isso, que continue a ser premiado com calorosas ovações, reconhecimento justo para quem, corrida após corrida, faz da sorte de bandarilhas um dos momentos altos do espetáculo.

A Condessa de Sobral apresentou um curro sério, bem rematado e de boa nota, que correspondeu às expetativas depositadas na ganadaria. Embora com comportamento desigual, os toiros revelaram mobilidade, transmissão e possibilidades para o triunfo dos artistas. O melhor lote sorriu a João Moura Júnior, destacando-se, sem qualquer dúvida, o quinto exemplar, um toiro bravo, com classe nas investidas, humilhação e entrega, que permitiu uma lide de grande expressão artística. A merecida volta à arena constituiu o justo reconhecimento da excelência do exemplar e do criterioso trabalho desenvolvido pela ganadaria.

Também Bernardo Alexandre teve razões para terminar a tarde com um legítimo sentimento de missão cumprida. O empresário idealizou um cartel equilibrado, ambicioso e à altura da importância desta data maior do calendário vilafranquense, conseguindo concretizar uma corrida que correspondeu às expectativas dos aficionados. Quando o trabalho de bastidores encontra resposta dos artistas, dos toiros e do público, o resultado só pode ser um espetáculo de qualidade, daqueles que perduram na memória e reforçam, ano após ano, o prestígio da Palha Blanco.
Feitas as contas, a corrida confirmou, uma vez mais, a importância da Palha Blanco no panorama taurino nacional. Entre a tradição perpetuada pelos campinos, o triunfo de João Moura Júnior, o rasgo de genialidade de João Salgueiro, a consistência de Borja Jiménez, a excelente prestação dos Forcados Amadores de Vila Franca e o comportamento dos toiros da Condessa de Sobral, ficou mais uma vez demonstrado que a Palha Blanco mantém intacta a sua identidade: uma praça exigente para quem nela atua, mas sempre pronta a reconhecer e agradecer, com justiça, aqueles que elevam a tauromaquia.
Texto e fotos Sofia Rodrigues




