O meu argumento é violentamente concreto,
ninguém quer viver no bairro de Vale de Judeus.
Se quisessem o bairro estaria habitado e não ao abandono, já que ninguém foi de lá expulso.
Este bairro foi construído para alojar guardas, funcionários e suas famílias, junto à cadeia. Este bairro com mais de 200 habitações do Estado, encontra-se quase na totalidade devoluto e degradado.
Há cerca de 30 anos estas pessoas passaram a poder optar entre ter casa no bairro, ou um subsídio de fixação em dinheiro se vivessem fora. A melhoria das acessibilidades rodoviárias e a preferência dos guardas prisionais em adquirir habitação própria fora do perímetro prisional ditaram o início da desertificação.
O bairro foi construído com todas as condições seguindo o modelo de “comunidade autossuficiente” com Igreja / Capela; Cineteatro / Salão de Festas; Campos de Jogos / Polidesportivo; Zonas Comerciais Básicas (mercearia/posto de abastecimento e uma barbearia); Parque Infantil / Espaços Verdes e Posto Médico.
Apesar de tudo isto, assim que deram uma escolha alternativa, a esmagadora maioria das famílias optaram por ir viver para outro lado. Porquê? Talvez e muito provavelmente porque as pessoas não querem viver isoladas, apesar de estar ao lado do local onde trabalhavam isso não era suficiente para exercerem a sua liberdade, materializada na livre escolha.
Há hoje um consenso generalizado no contexto das políticas de urbanismo que o isolamento de comunidades, com base seja em que critério for, está condenada ao fracasso. Mas aqui voltaremos mais à frente.
Reparem que as casas de função da Colónia Prisional de Alcoentre, estando dentro do tecido social da vila estão ocupadas (com excepção das que se deixaram degradar ao ponto de não serem habitadas), o que confirma o meu argumento.
Também está votada ao fracasso esta correria promessas eleitoralistas, visitas partidárias e proclamações arrebatadas de indignação, que vêm de todos os lados.
A Câmara de Azambuja foi tomada pelo populismo barato e simplório, para o qual contribuem todos os atuais protagonistas dos partidos. O PSD quer ser PS e o Chega quer ser CDU, nem se distinguem!
O bairro de Vale de Judeus é uma cortina de fumo para quem não tem uma política de habitação estruturada para o concelho.
Juntam ingredientes da moda para obter uma suposta adesão fácil, como o património degradado, aludindo ao dinheiro dos nossos impostos gasto ou há tanta necessidade de casas e estão ali aquelas que se deixa estragar.
Sei bem do que falo, durante todo o período em que fui vereador da chamada oposição na Câmara de Azambuja (2017 a 2025) pugnei pela existência de uma estratégia para a habitação no nosso concelho. A falta de casas em Azambuja começou muito antes de rebentar esta crise em todo o país.
Perante a inação da gestão PS apresentei, com o também vereador José Paulo Pereira, em março de 2023 uma proposta para a elaboração da “Carta Municipal de Habitação” e a criação do “Conselho Local de Habitação” para que até ao primeiro trimestre de 2024 existisse uma ideia clara das necessidades, fossem estabelecidos objetivos e como estes seriam cumpridos.
A proposta foi aprovada por unanimidade, mas até hoje nada foi feito. Não é surpreendente, todos sabemos que a única coisa importante que no município de Azambuja nunca se atrasa é a nossa querida Feira de Maio.
Voltando aos fracassos, os estimados leitores podem então pensar que há contradição no que escrevo, mas não há.
Fazem muita falta muitas casas no concelho, mas não são encostadas à cadeia de Vale de Judeus e todos os euros dos nossos impostos gastos na recuperação daquele bairro são deitados ao lixo.
Principalmente se for retirado ao orçamento de câmara, nesse caso é uma verdadeira tragédia.
As casas que fazem falta são perto onde há trabalho, no eixo Azambuja / Vila Nova da Rainha, em Aveiras de Cima com o desenvolvimento da zona industrial e eventualmente na freguesia de Aveiras de Baixo se fosse desenvolvido um verdadeiro polo de empresas entre a Guarita e os Casais da Lagoa. Mas também perto das escolas, da creche ao secundário, das áreas comerciais, desportiva ou culturais.
Quem conhece a zona poderá argumentar que há tudo o que escrevo e muito mais, a menos de 15 minutos do bairro de Vale de Judeus. E é verdade, mas é em Rio Maior.
Ou seja, na eventualidade de nas circunstâncias atuais, alguém vir a usufruir da recuperação deste bairro serão pessoas que fazem ou farão vida no concelho de Rio Maior. Aliás como a grande maioria dos habitantes do chamado alto concelho já faz hoje.
Concluindo, regresso ao título desta minha crónica, recuperar as casas de “Vale de Judeus” com o nosso dinheiro do orçamento da Câmara de Azambuja é ESTÚPIDO!
Porque será gasto onde não será útil, deixando de existir para investir onde seria verdadeiramente útil para o concelho crescer. Na melhor das hipóteses quem iria beneficiar seria Rio Maior e isso sem no mínimo contrapartidas contrárias é muito ESTÚPIDO!




