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Castanheira pode ganhar novos data centers em expansão de 340 hectares

A Câmara Municipal de Vila Franca de Xira deu mais um passo para transformar a zona da Castanheira do Ribatejo num dos maiores polos empresariais, logísticos e tecnológicos da Área Metropolitana de Lisboa. Na reunião de 27 de julho, o executivo aprovou o início do processo para elaboração do Plano de Pormenor de Expansão da Plataforma Logística Lisboa Norte, abrangendo uma área de cerca de 340 hectares.

O ponto foi aprovado por maioria, com o voto contra da vereadora Cláudia Martins, da CDU. As restantes forças políticas acompanharam a proposta, embora com diferentes reservas sobre o impacto territorial, ambiental, rodoviário e sobre as infraestruturas necessárias para suportar uma expansão desta dimensão.

Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara, apresentou a estratégia como uma oportunidade para transformar a atual plataforma numa grande área empresarial metropolitana, aproveitando a proximidade da A1, a ferrovia e o novo cais fluvial da Castanheira, pensado como extensão da atividade do Porto de Lisboa. Na mesma reunião, o presidente da Câmara afirmou que naquela zona já existem mais de três mil postos de trabalho e defendeu que o objetivo passa agora por aumentar a capacidade de desenvolvimento empresarial e tecnológico.

O autarca revelou ainda existir “imensa procura” por parte das empresas e assumiu que a aposta já não passa exclusivamente pela logística. “A procura que tem havido para a área das novas tecnologias tem sido grande”, afirmou, adiantando que o município trabalha com cerca de 15 empresas da plataforma e da zona norte do concelho e que já existem memorandos de entendimento entre privados.

A ambição municipal é que, conjugando os investimentos existentes com os novos projetos, os atuais cerca de três mil empregos possam aproximar-se dos cinco mil até 2030. Fernando Paulo Ferreira defende ainda que o crescimento do emprego qualificado deve ser acompanhado por maior oferta habitacional, permitindo que os trabalhadores possam também fixar residência no concelho.

Mas a dimensão da operação abriu também um debate político sobre até onde deve crescer a Plataforma Logística Lisboa Norte.

Oposição apresenta algumas reservas ao projeto

Miguel Cruz, da Nova Geração, defendeu que a expansão deve servir para alterar o perfil da própria plataforma, aproximando-a da economia digital e tecnológica e não apenas da logística tradicional. O vereador mostrou-se favorável à instalação de empresas tecnológicas, mas questionou se já existem investidores concretos e que benefícios ficarão efetivamente no concelho para além da criação de emprego. Alertou também para a necessidade de reforço da rede elétrica e para a criação de serviços e infraestruturas capazes de transformar a zona num verdadeiro ecossistema empresarial, e não apenas num conjunto de grandes edifícios empresariais.

Marisa Durão, do Chega, colocou a tónica no tráfego, transportes coletivos, proteção civil e capacidade dos bombeiros para responder a uma plataforma empresarial muito maior. O partido votou favoravelmente, mas deixou claro que esse voto “não é um cheque em branco” e reclamou compromissos quanto às acessibilidades, serviços públicos e meios de emergência.

Bárbara Fernandes, também do Chega, acrescentou preocupações quanto aos trabalhos de prospeção arqueológica e ao impacto do crescimento sobre a rede viária. Alertou para o risco de mais veículos de mercadorias optarem pelas estradas nacionais para evitar portagens e defendeu que o projeto deve ser acompanhado por soluções para o tráfego e acessibilidades.

A oposição mais vincada veio de Cláudia Martins, da CDU, única força a votar contra. A vereadora recuperou a posição histórica do partido: “Não somos contra a atividade logística, somos contra o sítio onde ela está a ser colocada”. Em causa estão cerca de 340 hectares, dos quais aproximadamente 295 correspondem a solo rústico, maioritariamente integrado na Reserva Agrícola Nacional, existindo igualmente áreas abrangidas pela Reserva Ecológica Nacional, zonas inundáveis e áreas de máxima infiltração.

Cláudia Martins questionou ainda a própria sequência do processo: se são necessários estudos ambientais, hidráulicos e de mobilidade para determinar a compatibilidade da expansão com o território, entende que a decisão política de expandir não deveria anteceder esses estudos.

Fernando Paulo Ferreira respondeu que é precisamente para permitir a realização desses estudos que o processo foi levado à Câmara e rejeitou a ideia de que desenvolvimento económico e proteção ambiental sejam incompatíveis. Segundo o autarca, o plano poderá ainda sofrer as alterações que os estudos venham a revelar necessárias.

Presidente da Câmara de Vila Franca no lançamento da primeira pedra da Worten no ano passado

Lisbon Data Center Campus, Merlin Properties, Edged Energy, Worten Orders Park, prometem revolução na plataforma

É neste contexto de expansão que ganham dimensão os grandes investimentos já em curso na Castanheira do Ribatejo, paralelos ao que foi aprovado em reunião de Câmara. Um dos projetos que melhor simboliza esta nova realidade é o Lisbon Data Center Campus, promovido pela MERLIN Properties e pela Edged Energy. O empreendimento está a ser construído por fases e prevê cinco edifícios destinados a centros de dados, além de edifícios de escritórios e administrativos. Os promotores anunciam uma capacidade total de 180 MW, com possibilidade de expansão futura até 300 MW, e apontam 2027 para a entrada em funcionamento da primeira unidade.

O campus está especialmente vocacionado para Inteligência Artificial e computação avançada. O investimento global, quando o projeto estiver totalmente desenvolvido, tem sido estimado em cerca de mil milhões de euros. A MERLIN e a Edged anunciam ainda utilização de energia 100 por cento renovável e um sistema de refrigeração sem consumo de água.

Ao lado desta aposta tecnológica está também a crescer a componente logística. Em julho de 2025 foi lançada a primeira pedra do Worten Orders Park, que deverá ocupar cerca de 120 mil metros quadrados e abastecer mais de 200 lojas da cadeia na Península Ibérica, além da operação digital. A inauguração está prevista para 2028.

O presidente da Câmara, Fernando Paulo Ferreira, apontou anteriormente para um investimento privado na ordem dos 90 milhões de euros e para a criação de cerca de 400 postos de trabalho. A Worten junta-se a outros grandes investimentos realizados nos últimos anos naquela zona. O Centro de Distribuição Nacional da Leroy Merlin, inaugurado em 2024, ocupa cerca de 105 mil metros quadrados e representou um investimento de 120 milhões de euros por parte da Montepino, acrescido de oito milhões da própria Leroy Merlin.

Questionada, entretanto, pelo Valor Local sobre o futuro da expansão, a Câmara confirma que existem manifestações de interesse de empresas e investidores para a nova área e que estão em curso negociações com o município e memorandos de entendimento entre privados.

A autarquia esclarece, contudo, um ponto importante: os cerca de 340 hectares que se pretende agora planear não correspondem a uma expansão do atual Lisbon Data Center Campus da MERLIN, nem dos outros projetos já anunciados.

Plano de Pormenor pode estar relacionado com empresas de novas tecnologias incluindo data centers

“O Plano de Pormenor da Expansão da Plataforma Logística de Lisboa Norte visa o desenvolvimento de uma nova área destinada a diversos usos que, incluindo as novas tecnologias, também se destinam a atividades logísticas e outros serviços”, refere a Câmara, acrescentando que pretende igualmente potenciar a mais-valia regional do novo Cais da Castanheira.

Mas há uma novidade particularmente relevante. Quando questionado o município, pelo Valor Local sobre a possibilidade de ali surgirem novas fases daquele campus ou outros centros de dados, a Câmara responde que “existe a manifestação de interesse da instalação de outros data centers”, embora considere os projetos ainda demasiado embrionários para revelar capacidades ou características.

O município confirma também que existem novas empresas cuja instalação a curto e médio prazo está “já confirmada”, sem, para já, revelar quais são. A crescente aposta nos data centers acrescenta outra dimensão ao debate. Estas infraestruturas são hoje essenciais para serviços digitais, armazenamento de dados e desenvolvimento da Inteligência Artificial e podem atrair investimento tecnológico e atividade económica especializada. Mas são também grandes consumidores de eletricidade e, dependendo da tecnologia utilizada, podem exigir quantidades relevantes de água para refrigeração.

No caso da Castanheira, a solução anunciada pela MERLIN e pela Edged procura responder precisamente a algumas dessas preocupações através da refrigeração sem consumo de água e da utilização de energia de origem renovável. Permanecem, contudo, questões que o futuro planeamento terá de esclarecer: qual a capacidade elétrica necessária caso se instalem outros data centers, que reforços serão exigidos à rede, qual o impacto acumulado de vários projetos, que emprego permanente será efetivamente criado e como serão compatibilizados crescimento económico, mobilidade, solos agrícolas e proteção do território.

A Castanheira já deixou, por isso, de ser apenas uma plataforma logística. O que está agora em discussão é a dimensão e o modelo do grande polo empresarial, logístico e tecnológico que poderá nascer a norte da Área Metropolitana de Lisboa — e até onde deverá crescer.

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