Nas Marés, a futura central de biometano não é discutida em toneladas de carbono evitado, metas europeias ou percentagens de substituição do gás natural. É discutida olhando para um monte. A discussão sobre a futura central de biometano das Marés já não está apenas dentro de uma sala de esclarecimento em Abrigada. Depois de a Gás da Terra apresentar um investimento de 20,5 milhões de euros para uma unidade com capacidade para receber cerca de 84 mil toneladas anuais de efluentes pecuários e outros subprodutos agrícolas e agroindustriais, a contestação passou para o terreno. A localização prevista, a cerca de 500 metros da povoação, continua no centro das preocupações dos moradores, que receiam odores, tráfego pesado e uma alteração profunda da qualidade de vida.
Do lado de cá estão as casas. Do outro, dizem os moradores, existem áreas onde a futura unidade poderia eventualmente ficar mais afastada da população. E é precisamente essa geografia muito simples que alimenta uma pergunta repetida pelo lugar desde que a Gás da Terra apresentou o projeto: se existe espaço mais longe das habitações, por que razão se pretende instalar uma unidade com capacidade para receber cerca de 84 mil toneladas de efluentes pecuários e outros subprodutos agrícolas e agroindustriais por ano a aproximadamente 500 metros da povoação?
Quando o Valor Local chegou às Marés, o eclipse solar, no dia 12 de agosto, estava prestes a começar. Na localidade, porém, os olhares estavam sobretudo postos no terreno e num projeto que trouxe inquietação a quem ali vive.
Henrique Martinho, morador, aponta para o terreno e descreve a alternativa que os habitantes gostariam de ver estudada. “Eles poderiam fazer do lado lá do monte e faziam uma puxada para aqui”, afirma. Na sua leitura, a escolha da localização mais próxima das casas estará relacionada com os custos das infraestruturas necessárias à ligação do projeto. “Se fizerem aqui encostado às nossas casas estamos nós a pagar”, desabafa. Para lá do monte, sustenta, existem zonas sem habitações próximas e uma maior proximidade a outras infraestruturas. “Ali não há casas. Eles tinham muito espaço para fazer a central naquele espaço.”
É a versão mais concreta de um conflito que se instalou nas Marés após a sessão de esclarecimento promovida pela Gás da Terra, na Sociedade Filarmónica União e Progresso de Abrigada, no início do mês. A empresa apresentou um investimento de 20,5 milhões de euros destinado a transformar resíduos provenientes sobretudo da agricultura, pecuária e agroindústria em biometano e biofertilizante. A explicação técnica não eliminou a desconfiança.
Henrique Martinho esteve na sessão e saiu preocupado com aquilo que poderá acontecer depois de a fábrica estar construída. “Se deitar cheiro, no fim de estar construída, nós temos que aguentar com isso o resto da nossa vida, porque a central vai ficar mesmo encostada aqui às casas.” O morador lembra que a população já convive com uma agricultura intensiva muito próxima das habitações e com sucessivos tratamentos nos pomares que circundam o lugar. “Agora, com uma fábrica dessas de biometano e sujeita a deitar cheiros, vamos passar, provavelmente, um bocadinho mal.”
A Gás da Terra garante que a unidade será concebida precisamente para evitar esse cenário. Segundo a documentação distribuída à população, as matérias-primas serão recebidas num sistema fechado, as áreas mais sensíveis funcionarão em espaços confinados e o ar será tratado antes de ser libertado. O processo de digestão decorrerá em tanques estanques e o biofertilizante resultante terá, segundo a promotora, menor intensidade de odor do que os estrumes e chorumes utilizados como matéria-prima.
Os resíduos deverão chegar maioritariamente de explorações situadas num raio médio de 20 a 30 quilómetros. A empresa prevê um máximo de cerca de 28 a 30 camiões por dia e assegura que os transportes serão realizados em veículos fechados, em horário essencialmente diurno e privilegiando vias principais.
Nas Marés, porém, os moradores olham menos para aquilo que poderá acontecer dentro dos digestores do que para tudo aquilo que terá de acontecer antes de os resíduos lá chegarem. “Os caminhões vão passar aqui na mesma”, alerta Pedro Catarino, chamando a atenção para o facto de que o possível bom funcionamento da unidade não resolve, por si só, o problema do tráfego pesado. Para o morador, a discussão terá necessariamente de incluir não apenas o terreno escolhido, mas também os itinerários usados diariamente pelos veículos.
José Maria segue a mesma linha de preocupação e exige uma intervenção mais forte das entidades públicas. Na sua leitura, não deveria caber aos habitantes demonstrar se a fábrica cumpre ou não as condições ambientais. “Nós votamos, quer para a freguesia, quer para a Câmara, para eles nos defenderem”, afirma, argumentando que são os serviços municipais e as entidades ambientais que têm de verificar “se está correto ou não, se tem cheiros ou não”.
E deixa uma crítica mais ampla à forma como atividades industriais acabam por aproximar-se das zonas habitadas. “As pessoas têm investido tanto dinheiro” nas suas casas e em projetos locais e, depois, “levam com uma empresa de lixo mesmo à porta”, protesta, utilizando a expressão com que caracteriza a futura unidade.
Nuno Deodato também não esconde a oposição. Não esteve na sessão de esclarecimento, mas acompanhou o assunto através dos vizinhos. Questionado sobre o investimento, responde de forma imediata: “Isto está mal feito, vai prejudicar aqui o ambiente todo.”
A possibilidade de visitar unidades semelhantes em França, proposta pela Gás da Terra como forma de mostrar a tecnologia em funcionamento, também não altera substancialmente a posição de alguns habitantes.
Henrique Martinho admite ir, mas não pretende limitar-se à visita organizada pela empresa. Quer sair da instalação, falar com quem vive nas proximidades e perceber o que acontece no quotidiano. “Vou tentar perceber se aquilo tem mau cheiro, se as passagens dos camiões são muitas ou não, e falo com a população para tentar saber se aquilo tem algumas condições ou não.”
Já Pedro Catarino classifica a iniciativa de forma muito mais desconfiada: “É uma operação de charme. Passar a mão na cabeça da gente.” Nas conversas recolhidas pelo Valor Local surge repetidamente outro sentimento: os moradores consideram que chegaram tarde a um processo que já percorrera etapas administrativas antes de a generalidade da população perceber exatamente aquilo que estava previsto.
Ernesto Silva esteve na sessão precisamente para tentar compreender o projeto. Saiu de lá com uma posição inequívoca. “Estou completamente em desacordo.” E faz questão de distinguir a tecnologia da localização. “Percebo que sejam feitas estas instalações e que sejam criadas estas fábricas para um ambiente saudável de todas as pessoas, mas não junto às populações”, afirma. “Quando nós temos aqui áreas tão grandes de terreno onde não vive população absolutamente nenhuma”, não compreende que se escolha uma zona “a 500 metros da população”.
Ernesto reconhece que a empresa apresentou uma operação tecnicamente controlada, com cisternas, sistemas fechados e confinamento dos resíduos. O problema, diz, é aquilo que acontece fora do perímetro da central e a experiência que a população tem com outras atividades pecuárias.
“Eles foram mais do que explícitos. Explícitos para o lado deles”, afirma. A descrição da promotora, acrescenta, pressupõe que tudo funcione como previsto, mas o morador receia que a realidade do transporte e manuseamento dos resíduos seja mais difícil de controlar.
A contestação já ultrapassou as conversas de rua. Existe um abaixo-assinado em curso e alguns habitantes admitem recorrer aos tribunais caso entendam que o processo avança sem salvaguardar suficientemente a população. “Tudo o que pudermos fazer contra, vamos fazer. Providências cautelares, seja o que for”, afirma Ernesto Silva. “Podemos não ir muito longe, mas pelo menos vamos tentar. Agora baixar os braços, não.”
Teresa Delfim introduz outra dimensão do problema: o impacto que a incerteza já está a provocar antes de existir qualquer fábrica. A moradora admite não dominar a tecnologia e chegou mesmo a hesitar quando foi convidada pelo Valor Local a falar. Mas há uma coisa, diz, que não implica conhecimentos técnicos para compreender: aquilo que significa viver permanentemente à espera de odores, ruído ou tráfego.
“A minha sanidade mental e de outras pessoas também já está a ser prejudicada por causa disso”, afirma. “As pessoas começam a pensar naquilo todo o dia, toda a noite.” Teresa trabalha por turnos e diz que a preocupação já lhe interfere com o descanso. “A mim, por exemplo, já me está a prejudicar. Eu já durmo mal.”
Perante a pergunta sobre se alguma explicação da empresa poderia tranquilizá-la, responde sem hesitação: “A mim nada me convence.” É precisamente esta distância entre a confiança na tecnologia e a confiança na sua execução quotidiana que atravessa praticamente todas as declarações recolhidas.
Os moradores repetem que uma instalação pode funcionar perfeitamente nos primeiros anos e temem aquilo que acontecerá quando os equipamentos envelhecerem, surgirem avarias ou falharem procedimentos. São receios e previsões da população, não problemas atualmente demonstrados no projeto das Marés, que ainda não está construído. Essencialmente esta população do concelho de Alenquer não quer ser uma segunda Passinha, e ver a sua qualidade de vida comprometida por causa de um projeto de uma grande empresa. O trauma já se sente.
“Todos nós já trabalhámos em fábricas”, argumenta Ernesto Silva. “Sabemos o que é uma fábrica quando inicia com equipamentos novos e sabemos o que é uma fábrica com 20 anos a trabalhar.” Para estes habitantes, a distância funciona assim como uma margem de segurança perante aquilo que a tecnologia não consegue garantir de forma absoluta.E é aqui que os 500 metros passam a ser o centro da discussão.


João Nicolau, presidente da Câmara de Alenquer – “É essencial que os resíduos sejam transportados em condições de total estanquicidade”
O atual presidente da Câmara de Alenquer, João Nicolau, confirma que em 2025, ainda no mandato anterior, foi aprovado um pedido de informação prévia relativo à implantação. Segundo explica, essa decisão significa que legalmente é possível instalar naquele espaço uma unidade daquela natureza. O pedido de licenciamento da construção ainda não entrou na Câmara e o projeto encontra-se numa fase anterior, associada à avaliação de impacte ambiental.
Nicolau reconhece que qualquer instalação industrial produz impactos e diz estar preocupado sobretudo com a forma como a operação será realizada. Daquilo que lhe foi apresentado, considera que a empresa demonstra consciência da necessidade de minimizar os efeitos na comunidade.
Quando confrontado diretamente com a proximidade às Marés e com a possibilidade defendida pelos habitantes de deslocar a unidade para uma zona mais distante, o presidente evita considerar desde já que os 500 metros sejam insuficientes. Compara a discussão à localização de outras infraestruturas incómodas: todos preferem que fiquem mais próximas do vizinho do que da própria casa. Ainda assim, reconhece que as preocupações devem ser devidamente avaliadas.
Entre elas, destaca os odores. “Parece-me que possa ser aquela que coloque mais dúvida”, afirma, lembrando que será necessário assegurar também que o transporte das matérias-primas é realizado em condições de total estanquicidade.
O presidente da autarquia vê igualmente no projeto uma oportunidade para responder a outro problema antigo do território: a gestão dos efluentes pecuários. João Nicolau reconhece que estrumes e chorumes constituem uma questão sensível e recorda episódios do passado relacionados com descargas. Na sua perspetiva, ao transformar aquilo que atualmente é um subproduto num recurso com valor económico, o biometano poderá criar um incentivo para o seu encaminhamento e tratamento adequados.
O Valor Local confrontou ainda João Nicolau com uma dúvida que nasce da própria realidade do concelho: se existem explorações pecuárias que nem sempre cumprem as regras e há um histórico de descargas de efluentes, que garantias existem de que esses mesmos operadores passarão a cumprir escrupulosamente os procedimentos exigidos para o encaminhamento dos resíduos para uma central de biometano? O presidente da Câmara reconhece o problema e recorda situações do passado em que ocorreram descargas provenientes de lagoas de suiniculturas, mas considera que a existência de um destino economicamente valorizado para esses efluentes poderá funcionar precisamente como incentivo ao cumprimento. “Estamos a falar da criação de um processo que vai evitar muitas dessas situações, porque há um destino que é valorizado, há uma remuneração também”, sustenta, considerando que o biometano poderá dar um destino adequado a resíduos que hoje constituem um problema ambiental.
Mas a população das Marés não aceita que a resolução de um problema ambiental possa criar outro problema junto das suas casas. “Quem vai ser prejudicado somos nós”, resume um dos moradores durante a conversa.
E há uma frase de Henrique Martinho que talvez sintetize melhor o sentimento coletivo: “Nós não fomos para o pé das fábricas. As fábricas é que estão a vir para o pé de nós.”

Rui Berkemeier: “500 metros? Isso é dentro da localidade, praticamente”
Rui Berkemeier, especialista em resíduos da associação ambientalista ZERO, não rejeita o biometano. Pelo contrário, começa por reconhecer-lhe várias vantagens ambientais.
A digestão anaeróbia permite aproveitar resíduos orgânicos para produzir energia renovável e um composto utilizável nos solos. Para Berkemeier, pode contribuir simultaneamente para o combate às alterações climáticas, gestão de resíduos e recuperação de matéria orgânica nos solos portugueses.
O problema aparece quando o Valor Local lhe revela a distância prevista entre a futura unidade e as Marés. “500 metros?”, reage. “Isso é dentro da localidade, praticamente.”
Berkemeier ressalva imediatamente que não conhece o projeto concreto e, portanto, não pretende avaliá-lo tecnicamente à distância. Mas em termos gerais é perentório: instalações destinadas ao tratamento de resíduos orgânicos deveriam ser afastadas das zonas habitadas. Na sua perspetiva, “pelo menos a um quilómetro, dois quilómetros das zonas habitacionais é o ideal”. E acrescenta: “Acho que não faz sentido haver promotores que queiram instalar unidades destas a centenas de metros de habitações. Isso não é aceitável.”
É uma posição que se aproxima diretamente daquilo que os habitantes tinham dito ao Valor Local no terreno: a tecnologia pode ser útil, mas a localização deve ser outra.
Berkemeier considera que mesmo cisternas, digestores estanques e edifícios fechados não permitem prometer risco zero. Pode haver um derrame, uma porta que permaneça aberta, uma avaria ou outro episódio operacional. “Uma coisa é a teoria de como as coisas funcionam e outra coisa depois é a prática, é o dia-a-dia”, afirma.
Por essa razão, entende que a distância constitui a primeira proteção. Não apenas para as populações, mas também para o próprio investidor, que poderá passar décadas a gerir conflitos caso a central seja instalada demasiado perto das casas. O ambientalista teme ainda que maus projetos possam colocar em causa a própria aceitação social do biometano. “Muito cuidado com a localização”, alerta, defendendo uma intervenção preventiva das CCDR e das câmaras municipais logo nas fases iniciais.
“O Estado tem de ser pedagógico”, sustenta. A pressão para instalar rapidamente unidades de biometano, acrescenta, poderá tornar-se contraproducente caso a transição energética seja feita sem suficiente atenção ao ordenamento do território e às comunidades.
Berkemeier recorda também o caso de Árgea, em Torres Novas, onde um projeto da mesma promotora encontrou forte contestação. Segundo a sua leitura, também ali sobressaiu o problema da proximidade às habitações. “Mesmo que legalmente seja possível, o bom senso diz para não se fazer”, conclui. “Há tantas zonas onde se pode instalar unidades destas, porquê ir fazê-las nas casas das pessoas?”
É praticamente a mesma pergunta que se ouve nas Marés quando os moradores apontam para o outro lado do monte.

Francisco Gírio: Os 500 metros podem ser tecnicamente compatíveis, mas aconselha maior distância
Francisco Gírio traz uma leitura diferente para a discussão. Investigador do Laboratório Nacional de Energia e Geologia e responsável ligado à elaboração do Plano de Ação para o Biometano 2024-2040, considera que a proximidade de uma instalação a uma povoação não pode ser analisada apenas através de uma distância fixa.
Questionado pelo Valor Local especificamente sobre uma unidade com capacidade para 84 mil toneladas anuais, situada a cerca de 500 metros das casas, explica que será essencial conhecer os sistemas de confinamento das matérias-primas, o tratamento dos digeridos e as restantes medidas de proteção ambiental.
“É possível que uma instalação dessas, mesmo a 500 metros da povoação, seja relativamente inócua para o ambiente em redor”, afirma. Mas introduz imediatamente uma ressalva importante: “Eu aconselharia que uma instalação dessas estivesse a uma distância superior de agregados populacionais.” As duas avaliações técnicas recolhidas pelo Valor Local não são, portanto, totalmente coincidentes.
Berkemeier considera centenas de metros insuficientes e aponta como ideal um afastamento da ordem de um a dois quilómetros. Gírio considera tecnicamente possível compatibilizar uma central a 500 metros com uma povoação, desde que todos os sistemas funcionem corretamente, embora também recomende maior distância.
Quanto aos odores, o investigador do LNEG afirma que os sistemas fechados permitem minimizar muito significativamente o risco. Transporte e descarga confinados, utilização de tubagens e digestores estanques são elementos essenciais.
Mas também Gírio não promete ausência absoluta de odores. Pequenas falhas técnicas podem sempre ocorrer e originar fugas pontuais. Do ponto de vista ambiental, confirma as principais vantagens apresentadas pela promotora. O armazenamento de estrumes e chorumes a céu aberto provoca emissões, nomeadamente de metano. O seu encaminhamento para digestão anaeróbia permite capturar esse potencial energético, produzir biogás e obter um digerido rico em nutrientes, passível de valorização agrícola.
Gírio considera a digestão anaeróbia uma tecnologia madura e lembra que a expansão ocorre já em vários países europeus, entre os quais França, Espanha e Itália. E Portugal prepara-se para seguir esse caminho.
O Plano de Ação para o Biometano 2024-2040 estima um potencial de produção de cerca de 2,7 TWh em 2030. Segundo Francisco Gírio, atingir essa ordem de grandeza poderá significar instalar “no mínimo, 50, 60 unidades agroindustriais desta natureza” no país.
A expansão não é acidental. O plano nacional considera que a produção de biometano poderá substituir cerca de 9,1 por cento do consumo de gás natural previsto para 2030 e identifica precisamente os resíduos agrícolas, estrumes e chorumes como uma das maiores fontes nacionais de matéria-prima. É isso que torna concelhos como Alenquer particularmente interessantes para esta nova indústria: grande atividade agrícola e pecuária, disponibilidade de resíduos e proximidade de infraestruturas de gás.

O Plano de Ação do Biometano e o caso das Marés
Mas o mesmo Plano de Ação contém uma orientação que ganha especial significado perante o conflito das Marés. O documento estabelece que sociedade civil, populações e administrações locais devem participar no desenvolvimento do setor. O documento recomenda expressamente a inclusão das populações locais ainda “na fase de pré-projeto” das instalações, de modo a aumentar a aceitação regional, e admite mesmo que eventuais medidas locais de mitigação sejam incorporadas nos custos dos projetos.
Ou seja, a estratégia portuguesa para o biometano não trata a população como alguém a quem se explica um projeto depois de escolhida a localização. Prevê que participe antes. Nas Marés, é precisamente isso que muitos moradores sentem não ter acontecido.
O projeto passou pela Câmara em 2025. A generalidade da população, diz, só mais tarde percebeu verdadeiramente aquilo que poderia vir a instalar-se junto das suas casas.
E agora há um abaixo-assinado, admite-se recorrer a providências cautelares, que conseguiu recolher centenas de assinaturas, e há pessoas que já dormem mal por pensar numa fábrica que ainda nem sequer existe.
No estrangeiro, onde o biometano está mais desenvolvido, a experiência mostra igualmente que tecnologia e aceitação social não são exatamente a mesma coisa. França possui uma das maiores redes europeias de unidades deste género e acumula exemplos de instalações que funcionam sem conflitos significativos, mas também episódios de contestação relacionados com odores, tráfego ou proximidade às populações.
São precisamente esses exemplos que a avaliação ambiental portuguesa terá agora de ajudar a separar: aquilo que constitui um risco tecnicamente controlável, aquilo que depende da operação futura e aquilo que pode ser evitado desde o primeiro momento através da escolha da localização.
Para a Gás da Terra, os 20,5 milhões de euros representam uma oportunidade de transformar resíduos que hoje constituem um problema em energia renovável e biofertilizante.
Para João Nicolau, o projeto pode trazer uma solução para parte dos efluentes pecuários produzidos no território, mas terá de demonstrar que os impactos estão devidamente mitigados.
Para Francisco Gírio, 500 metros podem ser tecnicamente compatíveis com uma instalação bem concebida, embora aconselhe uma distância superior.
Para Rui Berkemeier, centenas de metros são demasiado pouco e um projeto ambientalmente útil não deve ser prejudicado por uma localização errada.
Nas Marés, porém, ninguém fala em TWh. Fala-se da casa onde se vive, da estrada onde passarão os camiões, dos pomares que já rodeiam a povoação, do investimento feito ao longo de uma vida e daquele monte que os moradores continuam a apontar. “Podiam pô-la para lá”, repetem.




