A possibilidade de instalação de uma unidade de produção de biometano a escassos 500 metros da localidade das Marés, na freguesia de Abrigada e Cabanas de Torres, concelho de Alenquer, está a deixar os moradores muito preocupados. Na passada quinta-feira, teve lugar, na sede da Sociedade Filarmónica União e Progresso de Abrigada, uma sessão de esclarecimento promovida pela empresa Gás da Terra, mas as explicações dadas pelos seus representantes não deixaram a população mais tranquila.
O projeto foi apresentado como uma solução inovadora e ambientalmente sustentável para o tratamento e valorização de efluentes pecuários e outros subprodutos agrícolas e agroindustriais produzidos na região. Segundo a empresa, a unidade não receberá resíduos urbanos indiferenciados e as matérias-primas utilizadas serão provenientes apenas de produtores selecionados.
“Esta solução ajuda a evitar a libertação de emissões para a atmosfera, com produção de fertilizante para as terras, procedendo-se à extração da parte gasosa para que não produza efeito de estufa, sendo igual ao gás natural das nossas casas”, foi explicado durante a sessão. Depois de produzido e purificado, o biometano deverá ser injetado na rede de gás existente, podendo ser utilizado por famílias e empresas.
A população que, à partida, será mais afetada pela instalação da unidade não se deixou, contudo, convencer. Uma das principais preocupações prende-se com a circulação pela localidade de camiões transportando matéria orgânica e com os cheiros “nauseabundos” que os moradores receiam que daí possam resultar.
Os responsáveis admitiram que a escolha de Alenquer, e desta localização em concreto, está relacionada com a forte presença de explorações agrícolas e pecuárias na região. “Numa unidade deste tipo não estamos a inventar resíduos, mas aproveitamos os que existem no concelho”, sustentaram. De acordo com a informação disponibilizada pela empresa, as matérias-primas deverão ser recolhidas maioritariamente num raio médio de 20 a 30 quilómetros da futura unidade. A proximidade à rede de gás e as características da parcela de terreno foram outros dos fatores apontados para a escolha do local.
Projeto de 20,5 milhões de euros aguarda parecer das entidades do Estado
O projeto representa um investimento de 20,5 milhões de euros e terá ainda de passar pelo procedimento de avaliação de impacte ambiental e pelas necessárias aprovações das entidades competentes. Entre os organismos que, segundo a própria empresa, deverão acompanhar e avaliar o processo estão a Agência Portuguesa do Ambiente, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, a Direção-Geral de Energia e Geologia e a Câmara Municipal. No passado mandato autárquico, em 2025, foi submetido o pedido de parecer prévio por parte da empresa tendo sido aprovado com a abstenção da oposição, então PSD e CDU.
Inconformados, os habitantes das Marés pediram mais explicações, mas saíram da reunião convencidos de que, mesmo que a empresa consiga minimizar a questão dos maus cheiros, a circulação de camiões carregados com matéria orgânica será, por si só, suficiente para causar impactos significativos na qualidade de vida da população. Os moradores dizem já debater-se com outros problemas, nomeadamente a aplicação de produtos fitofarmacêuticos na atividade agrícola desenvolvida a escassos metros das suas casas e a recente deposição de materiais provenientes de uma antiga sucata.
Circulação de 28 a 30 camiões por dia pelas estradas do concelho
Segundo os responsáveis pelo projeto, deverão circular pelas estradas do concelho cerca de 28 a 30 camiões por dia, no máximo, número que procuraram relativizar lembrando que se trata de “uma estrada onde já passam cerca de oito a dez mil veículos diariamente”. Na documentação distribuída à população, a Gás da Terra garante que os percursos deverão privilegiar as vias principais e que os transportes serão realizados em horário diurno e durante a semana, procurando evitar ou reduzir a passagem por zonas habitacionais.
Também relativamente aos odores, uma das questões que mais inquieta os moradores, a empresa garante que as matérias-primas serão transportadas em veículos fechados e descarregadas num edifício igualmente fechado, cujo ar interior será tratado e purificado. O processo de digestão anaeróbia decorrerá em tanques estanques e, segundo a promotora, o biofertilizante resultante terá menos odor do que os estrumes e chorumes que lhe dão origem. A empresa assegura igualmente que a unidade funcionará em circuito fechado, sem descarga de efluentes resultantes do processo, e que as áreas operacionais serão impermeabilizadas, dotadas de sistemas de contenção e sujeitas a monitorização.
A futura unidade deverá receber cerca de 84 mil toneladas de resíduos por ano e prevê a criação de oito postos de trabalho diretos e dez indiretos. A empresa defende ainda que o projeto permitirá transformar resíduos que atualmente representam um custo para os produtores em matéria com valor económico, ao mesmo tempo que produz um biofertilizante rico em nutrientes e reduz a utilização de fertilizantes sintéticos importados.
Empresa quer levar habitantes das Marés a conhecer as suas unidades em França
Face às críticas e aos receios manifestados durante a sessão, a Gás da Terra disponibilizou-se para levar representantes da população a conhecer duas centrais do mesmo tipo existentes em França e pertencentes ao grupo em que está inserida. Na documentação entregue aos moradores, a empresa sublinha que esta não é uma tecnologia experimental e refere a existência de 1.678 unidades de biometano em funcionamento na Europa.
A promotora compromete-se ainda a propor às autarquias e juntas de freguesia a criação de um comité de acompanhamento com representantes locais, uma linha direta com resposta no prazo máximo de 48 horas úteis, informação regular sobre o licenciamento e a avaliação das vias de acesso, admitindo contribuir para a reparação de eventuais danos provocados pela operação da unidade.
O caso de Torres Novas
A Gás da Terra enfrenta, entretanto, um cenário de forte contestação a um projeto semelhante previsto para Árgea, no concelho de Torres Novas. A unidade, projetada para receber perto de 100 mil toneladas de resíduos biodegradáveis por ano, motivou a oposição de moradores e autarcas, que levantaram preocupações relacionadas com a proximidade às habitações, os maus cheiros, o aumento do tráfego de pesados e os potenciais impactos ambientais. A contestação chegou à Assembleia Municipal de Torres Novas, que aprovou três moções de rejeição à instalação da unidade naquela localização.
A Gás da Terra apresenta-se como uma empresa dedicada ao desenvolvimento de projetos de energias renováveis. O projeto surge associado à SWING Biomethane, plataforma europeia especializada em biometano cuja equipa, segundo a documentação da empresa, participou na construção de mais de 30 centrais em França, e à SWEN Capital Partners, gestora europeia de investimento sustentável que declara 9,1 mil milhões de euros em ativos sob gestão e um fundo de 580 milhões dedicado ao biometano.




