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Dez anos depois da UNESCO, a Falcoaria de Salvaterra de Magos chega aos grandes museus nacionais

Já passaram 10 anos da inscrição da Falcoaria de Salvaterra de Magos como património imaterial da Unesco. Para assinalar a data, a Câmara está a preparar um conjunto de iniciativas. Uma década depois, este património secular prepara-se para ultrapassar as fronteiras do concelho e conquistar novos públicos através de uma iniciativa inédita que levará a falcoaria aos principais museus e palácios nacionais.

A utilização de aves de rapina para otimizar a caça é uma atividade quase tão antiga como o homem, no entanto, foi durante a Idade Média que a Falcoaria começou a ganhar a força, não fosse conhecida como a época de Ouro da Falcoaria em Portugal.

Nessa altura, esta atividade começou a ser incluída nas cortes portuguesas e incorporada nas elites, momento em que deixou de ser apenas para sobrevivência, e passou a ser uma das distrações favoritas da nobreza. A prova disso reside em Salvaterra de Magos, com a construção do edifício da Falcoaria Real, no século XVIII, cujo objetivo era caçar, alojar, treinar e cuidar das suas aves.  “Para nós foi importante garantir que esta prática se mantém viva e esta salvaguarda garantiu que a Falcoaria está de certa forma protegida”, começa por contar Patrícia Leite, a técnica superior de História e responsável da Falcoaria Real.

Para Helena Neves, presidente da Câmara de Salvaterra de Magos, “a falcoaria é muito mais do que um património histórico ou um símbolo cultural, faz parte da identidade de Salvaterra e daquilo que nos distingue enquanto concelho”. Uma importância que, segundo Patrícia Leite, ganhou uma nova dimensão com a classificação da UNESCO. “Desde 2016 tivemos maior visibilidade, não só para a prática, como para o próprio edifício.”

Concelho assinala uma década como património imaterial com várias atividades

Agora, em 2026, para celebrar esta data estão programadas diversas atividades e dinâmicas, desde workshops a palestras. Um dos destaques aponta para a iniciativa “A Falcoaria na Rota dos Museus”. Segundo a autarca, este é um dos pontos que considera essencial para dar continuidade à Falcoaria, que inclui investigação, preservação e promoção da mesma.

“O município de Salvaterra de Magos convidou vários museus e palácios nacionais para se juntar nestas celebrações”, salienta Patrícia Leite. Esta iniciativa passará pelo Museu dos Coches, Museu Arqueológico do Carmo, Mosteiro de Odivelas, Fundação Oriente e muitos mais não só em Lisboa, como no Alentejo. Por lá, poderão ser encontradas peças de arte ou materiais que fazem parte dos seus acervos, relacionados com a Falcoaria.

No fundo, este novo projeto permite “criar uma rede de cooperação que reforça a visibilidade deste património” e convida ainda mais pessoas a conhecê-lo, salienta a autarca.

Mas o trabalho não fica por aqui: “Paralelamente, continuaremos a aprofundar o trabalho desenvolvido com investigadores, universidades e instituições culturais, porque acreditamos que preservar este património é também investir na nossa identidade e na cultura”, reforça Helena Neves.

Câmara gostaria que mais população do concelho aderisse às atividades da falcoaria

No entanto, apesar de toda a divulgação que tem acontecido nos últimos 10 anos, continuam a existir desafios.  Segundo Patrícia Leite uma das principais dificuldades prende-se com o objetivo de cativar as pessoas de Salvaterra para a prática desta atividade. A agenda cultural do município inclui ações nesse sentido.  

Já na visão da autarca, uma das maiores dificuldades passa por “assegurar as condições necessárias para que a prática da falcoaria” continue a ser feita de “forma sustentável, respeitando sempre a tradição.” A realidade dos falcoeiros em Portugal mostra isso mesmo. Em todo o território nacional, há cerca de 80 falcoeiros — e Sara Proença é uma dessas pessoas que escolheu fazer desta atividade, profissão. “É quase um testemunho passado de mão em mão. Somos poucos, é um facto.” Apesar de nunca ter conhecido a falcoaria, Sara acabou por se apaixonar por este mundo, que lhe foi dado a conhecer por colegas.  

Antes de se comprometer, Sara visitou a Falcoaria Real para compreender melhor que atividade era esta e depois de alguma pesquisa, decidiu tornar-se uma falcoeira. Apesar da forma como começou, esta atividade atualmente já não se resume apenas a um hobby e tem enorme benefício para o ecossistema das aves no estado selvagem. “É aplicável, por exemplo, em aeroportos, nas bases aéreas, nos aterros sanitários onde ajudam a evitar uma crise de saúde pública ou em momentos simples, como proteger a comida numa esplanada de um centro comercial”, explica.

Na Falcoaria Real existem aves das três famílias principais de aves de rapina, maioritariamente falcões, águias, buteos entre outros, e ainda um exemplar das aves noturnas o bufo-real. Com o crescente interesse na Falcoaria, Helena Neves explica ainda que o município tem aproveitado para divulgar e dar a conhecer outros locais pela região.

A lista inclui o Museu do Concelho, a Aldeia Avieira do Escaroupim, o Museu Escaroupim, a Casa Típica Avieira, o Centro de Interpretação dos Concheiros de Muge e os Bordados da Glória do Ribatejo. “O nosso objetivo é que quem visita a Falcoaria descubra também a riqueza de todo o concelho, prolongando a sua permanência e consequentemente, contribuindo para a dinamização da economia local”, remata.

No corrente mandato, Helena Neves explica que a cultura “tem tido um lugar de destaque”, algo que vai continuar nos próximos anos e os planos vão além da Falcoaria. “Estamos a desenvolver uma política cultural mais estruturada, contínua e próxima das pessoas, promovendo a ligação entre cultura, património, educação, ambiente, turismo e bem-estar.”

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