O concelho de Azambuja tem passado, até ao momento, ao lado dos grandes incêndios que marcaram o país durante o verão de 2026. Num território onde existem memórias recentes de ocorrências de grande dimensão, sobretudo na zona de Alcoentre e Manique do Intendente, a época de incêndios rurais apresenta por enquanto um balanço positivo. A preparação antecipada dos meios, a articulação entre os dois corpos de bombeiros do concelho e a capacidade de mobilizar rapidamente recursos para uma primeira intervenção são apontadas como fatores importantes para este resultado.
O balanço foi feito no “Hora Extra”, programa da Rádio Valor Local realizado em direto a partir do quartel dos Bombeiros Voluntários de Azambuja, que juntou Ana Coelho, vereadora responsável pela Proteção Civil da Câmara Municipal de Azambuja, Thays Freixo, comandante dos Bombeiros Voluntários de Azambuja, e Rui Marques, 2.º comandante dos Bombeiros Voluntários de Alcoentre, no passado dia 18 de setembro. Durante cerca de uma hora, os três responsáveis analisaram a época de incêndios, a preparação do dispositivo e os desafios deixados por um ano meteorologicamente exigente.
Ana Coelho faz, para já, um “balanço positivo” da época. Segundo a vereadora, não fosse um incêndio com cerca de 16 hectares ocorrido na zona industrial, a área ardida no concelho estaria bastante abaixo dos valores registados nos últimos anos. A responsável municipal ressalva, contudo, que a época de incêndios ainda não terminou e que as temperaturas elevadas continuam a exigir atenção.
Em Alcoentre, onde o histórico recente inclui incêndios de maior dimensão e períodos particularmente exigentes para a corporação, 2026 está também a decorrer de forma bastante mais tranquila. Rui Marques garante que não tem sido sentida falta de meios e destaca a proximidade e a articulação com corpos de bombeiros vizinhos como elementos importantes na capacidade de resposta.
“O balanço tem sido bastante positivo”, afirmou o 2.º comandante, sublinhando que as ocorrências registadas têm resultado numa área ardida reduzida. Segundo Rui Marques, a capacidade de dominar os incêndios nos primeiros 90 minutos tem contribuído decisivamente para limitar a progressão do fogo.
Há também outro elemento que os bombeiros consideram relevante: a deteção precoce. O posto de vigia existente no concelho tem permitido identificar rapidamente várias ignições, dando aos meios de socorro uma vantagem importante nos primeiros momentos da ocorrência. Rui Marques considera que este ano essa diferença tem sido particularmente percetível, com os alertas a chegarem numa fase em que ainda é possível desenvolver um ataque inicial mais eficaz.
A vereadora Ana Coelho reforça a importância desta estrutura. Embora o posto não integre a rede nacional de postos de vigia, a Câmara mantém-no anualmente em funcionamento, contratando pessoal para assegurar a vigilância. A sua localização permite uma ampla bacia de visibilidade, que abrange grande parte do concelho de Azambuja e chega também a territórios vizinhos, incluindo Rio Maior e Cadaval.

Bombeiros conseguem acelerar todas as etapas até chegarem ao local dos incêndios
Mas uma das principais diferenças identificadas pelos responsáveis está na rapidez com que os meios são colocados no terreno. Thays Freixo explica que a preparação dos Bombeiros de Azambuja não começa quando chegam os primeiros dias de calor. Passa pela formação contínua dos operacionais, pelo reforço do dispositivo e pela antecipação dos meios necessários em função das condições meteorológicas e do risco existente em cada momento.
Mesmo em setembro, lembra a comandante, temperaturas muito elevadas podem criar condições para ocorrências graves. Por isso, a estratégia passa não apenas por garantir uma primeira resposta, mas por assegurar também capacidade para um reforço imediato dos meios.
A articulação municipal permite que Azambuja e Alcoentre possam ser mobilizados praticamente em simultâneo para uma ocorrência. Na prática, perante um incêndio rural, os meios disponíveis no concelho são encarados como parte de uma resposta conjunta e não apenas como recursos da corporação territorialmente mais próxima.
Thays Freixo fala num “ataque inicial musculado”, procurando concentrar desde o primeiro momento capacidade suficiente para impedir que uma ignição evolua para uma ocorrência de maiores dimensões. Dependendo da localização, os Bombeiros de Azambuja deslocam-se para a área de Alcoentre e os de Alcoentre fazem o percurso inverso quando a ocorrência acontece na restante área do concelho. Depois desta primeira mobilização municipal, podem entrar os reforços dos corpos de bombeiros adjacentes.
É uma lógica que Rui Marques considera especialmente importante numa freguesia que, pela sua localização, poderia à partida levantar dúvidas sobre a rapidez da chegada de reforços. O 2.º comandante rejeita, contudo, a ideia de isolamento operacional de Alcoentre e sublinha a articulação existente com outras corporações e estruturas de socorro.
A experiência acumulada em anos anteriores também pesa na preparação. Os incêndios que atingiram aquela zona do concelho deixaram conhecimento operacional que, segundo Rui Marques, é transmitido aos bombeiros mais novos. A memória das ocorrências transforma-se assim em preparação para os anos seguintes. “O histórico também nos dá aqui alguma bagagem”, salientou.
Também a disponibilidade dos voluntários continua a ser determinante. Rui Marques contou que, mesmo quando não estão escalados, vários elementos contactam espontaneamente o quartel quando percebem que existe uma ocorrência nas proximidades para saberem se é necessário reforçar os meios. É uma disponibilidade que o responsável diz sentir tanto nas operações dentro do concelho como quando é necessário apoiar ocorrências no exterior.
Para Ana Coelho, a Central Municipal de Operações de Socorro assume igualmente um papel importante nesta articulação. Em vez de uma lógica em que cada corporação é contactada individualmente, o sistema permite trabalhar com os meios disponíveis em todo o concelho e fazer o respetivo despacho de forma articulada. A vereadora considera que esta capacidade tem permitido ganhar tempo e tornar a primeira intervenção mais eficaz.
A estrutura não se esgota nos dois corpos de bombeiros. A Cruz Vermelha participa no dispositivo através do apoio ao socorro e à emergência, permitindo, nomeadamente, assegurar resposta com ambulâncias enquanto meios dos bombeiros estão empenhados noutras operações. Para a vereadora, esta complementaridade é também uma peça do dispositivo municipal.
Apesar do balanço favorável, ninguém dá a época por terminada. Thays Freixo recorda que o risco se mantém elevado e que as características atuais dos incêndios obrigam a uma permanente adaptação das forças de socorro.
A comandante chama a atenção para ocorrências que podem apresentar comportamento extremo praticamente desde os primeiros momentos, reduzindo a margem disponível para uma intervenção progressiva. Mesmo operacionais experientes encontram atualmente cenários diferentes daqueles para os quais estavam habituados a responder, o que obriga, defende, a adaptar formação, procedimentos e capacidade operacional.
Rui Marques partilha essa preocupação. Para o 2.º comandante, as operações de socorro são hoje mais complexas e as condições meteorológicas obrigam os bombeiros a fazer avaliações diferentes quando chegam ao terreno. O combustível disponível, o relevo e a violência com que algumas ocorrências se desenvolvem aumentam a exigência sobre quem toma decisões nos primeiros minutos. A experiência continua a ser fundamental, mas o próprio conhecimento adquirido em anos anteriores tem agora de ser constantemente atualizado perante novos cenários.
Ana Coelho coloca a questão também do lado da população. A sucessão de fenómenos extremos, defende, mostra que a resposta não pode depender exclusivamente das estruturas profissionais e voluntárias de socorro. A responsável da Proteção Civil municipal considera que o próximo grande desafio passa pela criação de “comunidades resilientes”, nas quais os cidadãos saibam como reagir perante uma emergência.
A autarquia tem desenvolvido ações junto das escolas e sessões de formação destinadas à população, embora Ana Coelho reconheça que a adesão dos cidadãos continua abaixo do desejável. A aposta, garante, vai continuar. A ideia é preparar a população para situações em que, perante um fenómeno extremo, os próprios meios de socorro possam ter dificuldades em chegar imediatamente a todos os locais afetados.
A época de incêndios de 2026 ainda não permite, por isso, conclusões definitivas. Mas, num verão em que o país voltou a assistir a grandes ocorrências, Azambuja chega à segunda metade de setembro com uma realidade diferente. Houve ignições, houve um incêndio de maior dimensão na zona industrial e houve dias de risco elevado, mas não se repetiram, até agora, os cenários que noutros anos deixaram marcas profundas sobretudo na zona norte do concelho.
Entre prevenção, deteção precoce, mobilização conjunta dos meios e experiência acumulada no terreno, os responsáveis ouvidos no “Hora Extra” encontram várias explicações para este balanço. E todos deixam também a mesma cautela: setembro ainda não acabou e a época de incêndios também não.



Tempestades deixaram caminhos intransitáveis às portas da época de incêndios
Se os incêndios deram tréguas ao concelho, a preparação para o verão esteve longe de ser simples. O “comboio de tempestades” que atingiu a região durante o inverno e a primavera deixou consequências que ainda eram sentidas quando começou a preparação do dispositivo para a época de maior risco.
Ana Coelho identifica os acessos como “uma das principais dificuldades sentidas este ano”. Vários caminhos rurais ficaram degradados pelas chuvas, enquanto outros foram afetados por quedas de árvores e obstáculos que impediram ou dificultaram a circulação. A autarquia não conseguiu desobstruir toda a rede em tempo útil e teve de estabelecer prioridades, intervindo primeiro nas principais vias consideradas necessárias para a resposta operacional.
A chuva prolongou-se até mais tarde do que o habitual e reduziu a janela disponível para colocar máquinas no terreno. O problema foi discutido nas reuniões operacionais de preparação da época de incêndios, nas quais são identificados os caminhos que necessitam de intervenção.
À dificuldade nos acessos juntou-se outro problema: encontrar empresas e mão de obra disponíveis para executar trabalhos de limpeza. Segundo Ana Coelho, a Câmara apenas em agosto conseguiu contratar uma empresa para efetuar trabalhos nas faixas de gestão de combustível, numa altura em que a procura por este tipo de serviço era elevada em várias zonas do país.
O cenário meteorológico trouxe ainda uma dificuldade adicional. Depois de períodos de calor intenso, alguma precipitação durante o verão fez voltar a crescer vegetação em áreas que já tinham sido intervencionadas. Ao mesmo tempo, as temperaturas noturnas elevadas e a baixa humidade relativa reduziram a recuperação durante a noite.
Foi, portanto, perante acessos degradados, vegetação em crescimento e dificuldades de contratação que o concelho entrou na fase mais exigente da época de incêndios. Até ao momento, essas condicionantes não se traduziram numa grande ocorrência, mas constituíram um dos principais desafios da preparação municipal.
Das escolas de cadetes podem sair os bombeiros do futuro
A renovação dos corpos de bombeiros foi outro dos temas do “Hora Extra”, com realidades diferentes, mas sinais positivos, em Azambuja e Alcoentre.
Nos Bombeiros Voluntários de Azambuja, a escola de infantes e cadetes tem atualmente cerca de 30 crianças e jovens entre os seis e os 16 anos. A procura chegou a ser de tal forma elevada que, no ano passado, a corporação teve de fechar inscrições por ter atingido o limite considerado possível para manter as atividades e o acompanhamento pelos monitores.
Thays Freixo destaca sobretudo a continuidade. Três ou quatro jovens estão agora a atingir a idade que lhes permite passar para estagiários e iniciar a formação para a carreira de bombeiro. Há também elementos atualmente no corpo ativo que entraram na escola há cerca de dez anos e três deles progrediram este ano na carreira.

Mas a comandante não mede o sucesso apenas pelo número dos que acabam por vestir a farda. Mesmo quando uma criança ou jovem não segue a carreira de bombeiro, considera que a formação recebida transmite valores, conhecimentos e sentido de responsabilidade que permanecem na vida adulta.
Em Alcoentre, Rui Marques adiantou que está também a ser retomado o trabalho de formação e captação de novos elementos. A corporação realizou esta semana uma reunião com futuros bombeiros e conta com cerca de dez pessoas inscritas para uma nova turma de estagiários.
“O caminho é positivo, é muito positivo”, resumiu o 2.º comandante dos Bombeiros de Alcoentre.




