A corrida de 4 de outubro, integrada nas comemorações dos 125 anos da Palha Blanco, foi marcada pela chuva, pelos imprevistos e, sobretudo, pela resistência do público. O cartel reunia Miguel Moura, Tristão Ribeiro Telles e Daniel Luque, com os Forcados Amadores de Montemor e de Vila Franca, perante toiros de 3 ganadarias diferentes.
A chuva começou a cair praticamente no início da corrida, mas não durou muito e o público não arredou pé. O aficionado vilafranquense permaneceu nas bancadas, acompanhando a corrida com a atenção e a exigência habituais nesta praça.
Na primeira parte, Miguel Moura e Tristão Ribeiro Telles procuraram interpretar os seus oponentes com disponibilidade e sentido de responsabilidade, enfrentando as diferentes condições que lhes foram apresentadas. As suas atuações contribuíram para manter a corrida em andamento, ainda que nem todos os momentos tenham alcançado a intensidade ou a ligação desejadas. Houve, sobretudo, uma procura constante de dar resposta e de construir as lides dentro das possibilidades oferecidas pelos toiros.
Também os forcados de Montemor e Vila Franca assumiram o seu papel com a entrega que se espera de dois grupos de referência. As pegas foram marcadas pela determinação e pela emoção, mantendo viva a componente mais coletiva e arriscada da corrida. A presença dos dois grupos acrescentou competitividade e interesse à tarde, com os homens da cara a enfrentarem os seus compromissos com coragem e espírito de grupo.
Daniel Luque, uma das figuras mais aguardadas do cartel, mostrou a sua técnica e o seu conceito. Procurou conduzir as lides com critério, impondo a sua forma de entender o toureio e deixando apontamentos de qualidade. A sua atuação trouxe ao cartel a experiência e a categoria de um matador reconhecido, embora as condições encontradas e a própria evolução da corrida não tenham permitido que a tarde atingisse, no conjunto, a consistência que os aficionados esperavam.
O início da segunda parte ficou, contudo, marcado por um episódio pouco feliz. O primeiro toiro apresentou, logo à saída dos curros, uma lesão, acabando por ser recolhido. Tratava-se de um animal com 730 quilos, cuja condição física tornou ainda mais evidente a necessidade de proceder à sua retirada. A decisão era compreensível perante a condição, mas a espera pela resolução da situação foi longa, arrefeceu o ambiente e quebrou o ritmo da corrida. Perante esse imprevisto, Tristão Ribeiro Telles acabou por tourear primeiro na segunda parte, permitindo que o sobrero fosse devidamente preparado para entrar de seguida e ser lidado por Miguel Moura. Foi uma decisão de sentido taurino, procurando evitar uma espera ainda mais prolongada e dar continuidade possível ao espetáculo, dentro das circunstâncias que se apresentava.
Trata-se de um dos imponderáveis da festa brava. Perante uma lesão evidente, a prioridade deve ser o bem-estar do toiro e a segurança dos intervenientes. Ainda assim, para quem estava na bancada, o interregno retirou dinâmica à tarde e tornou mais difícil recuperar de imediato a intensidade que se procurava.
Ultrapassado esse momento, a corrida prosseguiu com Tristão Ribeiro Telles, Miguel Moura e Daniel Luque a procurarem manter viva a emoção, cada um dentro da sua linguagem e das possibilidades oferecidas pelos respetivos oponentes. Os forcados voltaram igualmente a assumir o seu lugar, contribuindo com a sua entrega para que a corrida não perdesse por completo o ambiente criado no início.
Talvez essa seja a principal imagem desta corrida de aniversário: não foi uma tarde perfeita, mas foi uma tarde de afición.
Houve momentos mais conseguidos, imprevistos e uma meteorologia adversa. Houve atuações com diferentes níveis de ligação e intensidade, mas também houve disponibilidade, técnica, coragem e vontade de responder perante uma praça exigente. E houve uma bancada que permaneceu, esperou, aplaudiu e continuou a viver a corrida.
A Palha Blanco não é apenas uma praça com história. É uma praça com afición, memória e personalidade. E enquanto houver público disposto a enfrentar a chuva para ver toiros, cavalos, capotes, muletas e forcados naquela arena, os seus 125 anos serão também futuro.




