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Sónia Ferreira Presidente da Câmara de Benavente: “Encontrámos uma casa bastante desarrumada”

A presidente da Câmara Municipal de Benavente, Sónia Ferreira, foi a convidada do programa “Hora Extra”, da Rádio Valor Local. Numa entrevista realizada na zona ribeirinha de Samora Correia, a autarca fez o balanço do primeiro ano de mandato, falou da situação financeira do município, das consequências das intempéries e dos desafios associados ao crescimento do concelho, abordando ainda o aeroporto e os projetos previstos para 2027.

Miguel António Rodrigues

Valor Local- Está praticamente a completar um ano desde as eleições autárquicas. O que mudou no concelho de Benavente desde que assumiu a presidência da Câmara Municipal?

Sónia Ferreira- Estamos ainda a tentar mudar muita coisa porque, como é público e já disse diversas vezes, encontrámos uma casa com procedimentos muito antigos e bastante desarrumada, no nosso entendimento. Este ano tem sido muito dedicado à arrumação dos próprios serviços. Estamos também a terminar a reorganização do organograma da Câmara Municipal, que pretendemos que entre em funcionamento no próximo dia 1 de janeiro de 2027. Tem sido muito trabalho de formiguinha, muito trabalho que não se vê, mas já houve alguns investimentos interessantes que foram feitos no nosso município.

VL – O seu mandato começou sem maioria absoluta, situação que se mantém, mas conseguiu estabelecer um acordo com o Chega. Até que ponto foi importante esse entendimento para a governabilidade do município?

SF – Foi obviamente importante para nos dar a tranquilidade necessária para arrumar uma casa que estava muito desarrumada. Sem maioria, tudo se tornava muito mais complicado do que é hoje. A relação com os nossos parceiros é muito boa, funcionamos e trabalhamos muito bem. Mesmo tendo, muitas vezes, ideias ligeiramente diferentes, chegamos a entendimentos. É também com ideias e pontos de vista diferentes sobre diversas matérias que conseguimos chegar a melhores resoluções.

VL- Falou na necessidade de arrumar a casa. Aquilo que encontrou na Câmara Municipal estava longe do que imaginava, sobretudo em termos financeiros? Nas reuniões de Câmara tem sido notório o seu desassossego relativamente às contas herdadas dos anteriores executivos comunistas.

SF- Sim, efetivamente. Para ser muito sincera, quando entrámos, em novembro, não tínhamos chefe de divisão financeira. Logo aí tivemos um choque inicial, apesar de já sabermos que não havia essa chefia. Tivemos de preparar o primeiro orçamento sem uma chefia financeira. Deixo aqui uma palavra para essa equipa, que é fantástica e que nunca nos deixou ficar mal. Depois de todas as despesas cabimentadas, num orçamento que tem, em números redondos, 39 milhões de euros, tínhamos cerca de um milhão e pouco disponível para investir. Todo o resto estava cabimentado. E o que é que eu posso fazer com um milhão e duzentos mil ou um milhão e meio de euros que nos sobrava para podermos investir.

VL – Havia obras importantes que vinham do passado e que pretende concretizar. Apesar das limitações financeiras, tem sido possível avançar com esses projetos?

SF –  Sim. Estamos a terminar a obra do Museu, que se iniciou em 2021. Faltam apenas alguns detalhes e prevê-se a abertura em março, com a chegada da primavera. Estamos também a terminar uma obra em Benavente, na zona do Centro Cultural e dos Bombeiros, que tinha um prazo de execução de três meses e passou para dois anos. Essa obra já podia estar terminada, mas os jardins também tinham de ficar concluídos, incluindo a plantação de novas espécies. Não é em agosto que se deve fazer esse trabalho e, por isso, autorizámos um ligeiro prolongamento para que fosse realizado na altura correta. Mais uma vez, temos obras herdadas em que não foi pensado o estacionamento, obras que não têm ilhas ecológicas e jardins sem rega automática. Imagine o que seria plantar árvores novas sem ter rega nesses locais. É completamente impossível realizar esse tipo de trabalho nessas condições. Estamos também a pintar edifícios municipais, a intervir nos arruamentos por todo o município, num trabalho iniciado há cerca de dois meses, e a construir lombas elevatórias. Aqui em Samora Correia está a decorrer a substituição de luminárias. A seguir, a intervenção irá para Benavente, também nas zonas ribeirinhas. Foi outra obra que não ficou bem conseguida, porque, quando se escolheram as iluminações, não se pensou nas cheias. Sabemos que estas duas zonas são inundáveis e tínhamos muitas reclamações, com toda a razão, porque havia locais às escuras. Estamos precisamente a iniciar essas substituições.

VL – Estamos na zona ribeirinha de Samora Correia, um espaço recentemente requalificado e onde estão agora a decorrer novas intervenções. Estas obras não estavam inicialmente previstas no seu programa.

SF – São questões que vão surgindo e das quais nos vamos apercebendo ao longo do tempo. Temos de atuar e retirar verbas de algumas rubricas para as colocar noutras, de modo a resolver problemas. Aqui está em causa a possibilidade de as pessoas aproveitarem este espaço, mas também uma questão de segurança. Tomámos posse no dia 3, à noite. No dia 4 tivemos o primeiro dia efetivo de trabalho e, no dia 5, enfrentámos a tempestade Cláudia, para a qual ainda não estávamos preparados. Mas isso foi muito leve comparado com aquilo que iríamos viver em janeiro e fevereiro. Nunca tínhamos vivido nada semelhante no nosso país e na nossa região. Se não foi pior, muito se deveu aos investimentos feitos nas barragens ao longo dos últimos anos e ao controlo dos seus caudais. Caso contrário, poderia ter sido ainda pior do que em 1979, quando ocorreram aquelas cheias que ficaram marcadas na memória das populações, nomeadamente no Pombalinho. Foi assustador, sobretudo nos primeiros dias e nas primeiras horas. Perguntávamo-nos o que fazer. Deixo uma palavra de agradecimento e reconhecimento à nossa Proteção Civil, aos bombeiros de Benavente e de Samora Correia, à GNR e às juntas de freguesia. Foram semanas intensas, mas que também nos deram uma enorme experiência. Eu dizia muitas vezes ao comandante que eu precisava de formação, e ele respondia-me que a melhor formação que uma presidente de Câmara podia ter era aquela. E é verdade. Foi um batismo de fogo muito agressivo. Tivemos também a ajuda dos fuzileiros, que foi fundamental em algumas situações, nomeadamente em locais onde havia muitos animais para salvar e alimentar. Foram semanas de grande aprendizagem, de conhecimento do território e das suas vulnerabilidades. Percebemos, por exemplo, que o edifício-sede da Câmara Municipal não tinha um gerador. Os servidores da Proteção Civil estão alojados nesse edifício. Se a Câmara fica sem eletricidade, os serviços municipais deixam de funcionar. Infelizmente, foi esta a realidade que encontrámos. Hoje estão para chegar geradores para os locais onde são necessários, nomeadamente, a GNR, a Câmara Municipal e as juntas de freguesia. Através de um programa do Governo, em conjunto com a Proteção Civil, estão também a ser instalados nas juntas sistemas Starlink, de internet por satélite. Esperemos que nunca seja necessário utilizar esses equipamentos, mas é importante existir essa salvaguarda. Estamos também a rever a sinalética que ficará à responsabilidade das juntas de freguesia. Nunca nos passou pela cabeça ficarmos dez dias com a Estrada Nacional 118 interrompida entre Samora Correia e Benavente, obrigando a percorrer muitos quilómetros para chegar de Santo Estêvão a Samora ou a Benavente. É necessário que, no caso de outra catástrofe e de ficarmos isolados, tenhamos meios mais próximos para socorrer e servir as nossas populações.

VL – Benavente é um concelho enorme, com cerca de 520 quilómetros quadrados, muitas estradas e localidades dispersas. Gerir todas estas situações deve ter sido um desafio difícil.

SF – Foi tudo muito intenso. Tivemos vários problemas na Estrada Nacional 118, nomeadamente na ligação à conhecida rotunda da Torre, que esteve interdita durante alguns dias. Tivemos também problemas na Estrada Nacional 119, para onde foi desviado muito do trânsito. Essa estrada começou a abater, ficando visível que não aguentava o tráfego de veículos pesados que recebeu naqueles dias.

VL- Foi também uma aprendizagem relativamente à circulação rodoviária e à capacidade de escoamento do trânsito. Sentiu a solidariedade do Governo durante as intempéries? Essa proximidade fez diferença no socorro às populações?

SF- Claro que sim. Quando temos membros do Governo que nos telefonam, que atendem as nossas chamadas e que passam pelo nosso território, isso dá-nos alento e vontade de continuar. A zona mais complicada de gerir, mas onde considero que o trabalho foi muito bem conseguido, foi precisamente nesta zona ribeirinha de Samora Correia, onde existem muitas construções em leito de cheia. Naquela quinta-feira, desde muito cedo, a junta de freguesia andou a bater a todas as portas. Encontrámos pessoas acamadas das quais ninguém tinha conhecimento, pessoas que viviam sozinhas invisuais. Todo esse contacto teve de ser feito ao longo de poucas horas. Tínhamos o tempo muito contado porque a maré cheia estava prevista para as oito ou oito e meia da noite e não sabíamos o que esperar. Havia uma grande indefinição, mesmo por parte dos meios de previsão. Foi um dia emocionalmente muito difícil.

VL – Passando para outros projetos do município, há a questão da nova escola secundária de Samora Correia, um investimento de quase 18 milhões de euros. Em que ponto está o processo?

SF – Foi mais um dos desafios que tivemos e que nos provocou noites mal dormidas. Quando entrámos, percebemos que não havia projeto. Havia uma intenção de construir a escola secundária naquele terreno, mas não passava disso. O terreno já estava adquirido e tinha sido apresentada uma candidatura a financiamento, mas ficara de fora precisamente porque não existia um projeto, que era uma das condições obrigatórias. Entretanto, abriu um novo financiamento do Banco Europeu de Investimento. No primeiro financiamento, destinado às escolas consideradas muito urgentes, não conseguiríamos cumprir os prazos, porque era necessário lançar um procedimento, fazer um concurso público e desenvolver um projeto daquela dimensão, que depois ainda tem de obter aprovações de várias entidades. Foi outra corrida contra o tempo. Caso contrário, perderíamos novamente a oportunidade. Ainda não sabemos se vamos ser contemplados, porque não existe financiamento para todas as escolas que concorreram, mas estamos convictos de que poderemos ser uma das escolhas. O concelho apresenta um crescimento consolidado desde 2001 e, ao longo destes anos, não se fez o necessário para atualizar uma série de infraestruturas e acompanhar a chegada de novos habitantes. Passamos muitas vezes o tempo a colmatar falhas. Não é da forma que gostaríamos de trabalhar, mas é a forma possível para que os serviços continuem a funcionar.

Foi um trabalho muito importante, com o empenho máximo do executivo e dos nossos técnicos, quer da engenharia e das obras municipais, quer dos fundos comunitários. Fizemos reuniões semanais e conseguimos entregar a candidatura com o projeto no dia 28 de junho, antes do prazo terminar, a 30 de junho.

VL –  Portanto, estamos a falar de um projeto de quase 18 milhões de euros, mas o financiamento ainda não está aprovado?

SF – Não. Estamos à espera de resposta das entidades. Entretanto, há um novo aviso, mas estamos convictos de que poderemos ser uma das escolas escolhidas. Obviamente que não é apenas uma questão de convicção. Há vários fatores que influenciam a decisão, desde o próprio projeto às necessidades existentes. Devo dizer-lhe que já estamos também a rever a Carta Educativa. É uma carta que deveria ser revista apenas em 2028 ou 2029 e que já se encontra desatualizada. Todas as previsões feitas em 2021 e 2022 estão ultrapassadas. Isso demonstra bem o crescimento que tivemos e que não era esperado nesta dimensão. A revisão está em curso. Tudo isto entronca na falta de planeamento.

VL- Na sua opinião, esta situação resulta da falta de planeamento dos anteriores executivos liderados pelo PCP?

SF – Exatamente. Falta de planeamento e muita falta de cuidado com o património. E, quando falo de património, refiro-me a tudo: centros culturais, cineteatros, escolas e pavilhões desportivos. Durante as intempéries percebemos bem que chovia em todo o lado. Não foi porque alguma coisa desabou naquela altura que começou a chover dentro dos edifícios. Foi porque as coberturas estavam danificadas há muito tempo. Fazia-se uma construção, mas depois não se assegurava o acompanhamento nem a manutenção necessária. Agora é muito mais caro intervir, porque já não estamos a falar de simples manutenções, mas quase de reconstruções de alguns edifícios.

VL- Falando do crescimento do concelho, não podemos deixar de abordar a futura construção do aeroporto. Há necessidade de creches, escolas e serviços de saúde. O aeroporto será a grande alavanca de desenvolvimento de Benavente ou poderá ajudar a promover um crescimento mais controlado?

SF – O aeroporto é uma oportunidade que o concelho não pode perder. No entanto, não podemos ficar à espera dos investimentos associados ao aeroporto, porque se prevê que abra daqui a dez anos, se tudo correr bem. Não podemos esperar que o aeroporto venha para realizar obras e investimentos que são necessários para responder às necessidades que já temos hoje. Há números dos recenseamentos nas juntas de freguesia que continuam a aumentar desde as últimas eleições presidenciais. Temos crescido em todas as freguesias e já devemos rondar os 40 mil habitantes. Não deve faltar muito para chegarmos a esse número. Temos uma falta de infraestruturas que não foram criadas ao longo do tempo. Falou numa questão muito importante, que são as creches. Já temos em aprovação um projeto para construir uma creche em Benavente. Optámos por começar aí porque era a solução mais rápida, aproveitando um espaço da Câmara Municipal que pode ser transformado numa creche. A seguir, avançaremos com um projeto para Samora Correia, que também precisa muito desta resposta. É fundamental que as novas famílias que chegam ao nosso município tenham onde deixar os filhos e possam trabalhar. Conheci muitas pessoas que tiveram de deixar de trabalhar, em pleno século XXI, ou viram os seus rendimentos diminuir porque tiveram de optar por um trabalho a tempo parcial para poderem ficar com os filhos em casa. A creche de Benavente ainda não está a funcionar, mas não se consegue fazer tudo em oito ou nove meses, sobretudo com as intempéries pelo meio. O projeto está em aprovação na Segurança Social e estamos convencidos de que até ao final do ano conseguiremos iniciar as obras, para que, o mais rapidamente possível, exista uma resposta para mais 60 crianças. O objetivo é depois chegar às outras freguesias, aproveitando edifícios que possam ser requalificados e adaptados. Em Samora Correia será necessário construir uma nova valência de raiz. No que diz respeito à saúde, em Samora Correia o serviço funciona bem, embora existam algumas lacunas em Benavente. A nova administração da Unidade Local de Saúde de Vila Franca de Xira entrou praticamente na mesma altura que nós. Tivemos a primeira reunião em dezembro e também estavam a começar a reorganizar alguns serviços. O presidente da administração já tinha estado no hospital na altura da parceria público-privada, pelo que conhece muito bem a instituição, o que ajuda bastante. Tivemos recentemente a notícia de que vão entrar mais seis obstetras para o hospital, o que é uma boa notícia. Em Benavente, a unidade de saúde está a ser reconstruída e reorganizada.

VL- As populações continuam a queixar-se da falta de médicos e a Comissão de Utentes tem chamado a atenção para essa realidade. Essas preocupações chegam à presidente da Câmara?

SF- Sim, claro. A saúde é sempre um tema muito sensível, porque mexe connosco e com os nossos. Quem tem filhos, pais ou avós sabe como são importantes os cuidados de saúde. O Centro de Saúde de Benavente está a ser reconstruído neste momento. Já temos mais médicos e uma boa equipa de enfermagem. Vieram inclusivamente enfermeiras do Hospital de Vila Franca de Xira para ajudar nessa reorganização. Gostaríamos que estas coisas se resolvessem de um dia para o outro, com um estalar de dedos, mas não é assim que se faz.

VL- Falando da economia do concelho, existe ainda uma grande margem de crescimento nas áreas industriais. Qual é a política deste executivo para atrair novas empresas e investimentos?

SF- Temos onze unidades operativas de planeamento e gestão previstas no nosso Plano Diretor Municipal, sem contar com as áreas que serão necessárias para o aeroporto. Recebemos muitos investidores estrangeiros e nacionais interessados no nosso território. Muitos chegam através das entidades de promoção do investimento e procuram zonas próximas de Lisboa, com boas localizações. A vinda do aeroporto e a ferrovia de alta velocidade têm obviamente impacto nesse interesse, mas Benavente já tinha uma posição estratégica muito importante. Estamos próximos de um dos maiores nós rodoviários do país, com a A10 e a A13, que permitem ligações ao Norte, ao Sul e ao Alentejo. Estamos a ser muito rigorosos relativamente à instalação de indústrias que possam ser poluentes. Isso está fora daquilo que pretendemos. Queremos apostar na logística, em empresas de precisão e no setor agroalimentar. Não nos podemos esquecer de que temos aqui, à nossa frente, a Lezíria, com alguns dos terrenos mais férteis de Portugal. E não temos um centro de apoio à inovação agroalimentar, nem estruturas que apoiem os jovens que se queiram fixar na agricultura. Não temos aqui nada que possa ajudar os jovens que se queiram dedicar à agricultura. E nunca nos podemos esquecer de que, sem agricultura, não há comida na mesa. É necessário fomentar essa atividade e temos o território ideal para isso, associando também a tecnologia e criando emprego qualificado.

VL – Como pretende concretizar esse projeto de apoio ao setor agroalimentar, de que já falou várias vezes?

SF – O projeto está a ser trabalhado em conjunto com o Ministério da Agricultura e com os nossos vizinhos, nomeadamente a Companhia das Lezírias, que faz todo o sentido envolver para alavancar o processo. Depois terão também de participar as organizações de produtores que estejam interessadas. A ideia é existir um local de partilha de conhecimento, tecnologia e maquinaria, o que considero fundamental para os nossos jovens.

VL – Há também eventos que têm marcado a dinâmica do concelho, como a Feira Rural de Benavente e o Festival do Arroz Carolino. As intempéries condicionaram algumas iniciativas. Qual é a sua visão para estes eventos?

SF – A Feira de Benavente é para manter e para crescer. Queremos que se torne também um centro de negócios ligado à agricultura, como acontece em muitos outros locais do país e do mundo. Temos de aproveitar os bons exemplos e aquilo que de melhor se faz nesta área. Considero fundamental não perdermos as nossas raízes nem aquilo que nos caracteriza enquanto território, sobretudo quando recebemos tantas pessoas novas. Relativamente ao Festival do Arroz Carolino, estávamos a analisar a sua reformulação. O PSD sempre foi muito crítico em relação ao festival, não propriamente pelo evento em si, mas pelo retorno que traz ao município. Quando a Câmara investe dinheiro público, que é de todos nós, tem de ter uma noção muito clara do que esse investimento traz em troca. Aquilo que percebemos foi que, ao longo dos anos, tudo ficava concentrado naqueles três dias. É muito agradável ouvir bons concertos, ainda por cima gratuitamente, mas o que fica no nosso concelho? Nem sequer temos unidades hoteleiras onde as pessoas possam passar o fim de semana, de sexta-feira a domingo. Há outros exemplos, como Paredes de Coura, onde existem condições para acampar e permanecer vários dias. As pessoas consomem nos restaurantes, nos supermercados, usufruem da cultura e contribuem para a economia local. Temos de divulgar o nosso território e aquilo que é nosso, mas não podemos esquecer-nos da economia local e do retorno que estes eventos devem proporcionar.

VL- Portanto, o Festival do Arroz Carolino é um evento a reformular. Passando à mobilidade, o município apresentou recentemente um plano para Samora Correia. Era uma necessidade urgente, tendo em conta os problemas de estacionamento e circulação?

SF- Claro que sim. Não apenas em Samora Correia, mas também em Benavente. Temos dois polos urbanos importantes e, em Samora Correia, o problema é maior. Por isso, começámos por aqui, trabalhando em conjunto com a junta de freguesia. Vão nascer bolsas de estacionamento para responder às dificuldades existentes. As pessoas têm muitas vezes dificuldade em deslocar-se ao comércio local porque não encontram onde estacionar. Está também previsto um autocarro elétrico que fará um percurso de ligação por toda a freguesia de Samora Correia, que é bastante extensa. As pessoas dos Arados, do Porto Alto ou de outras zonas têm dificuldades nas deslocações. Esse autocarro fará também a ligação às escolas, permitindo uma maior autonomia às crianças e aos jovens que já têm idade para utilizar os transportes sozinhos. A ideia é evoluir, mas começamos por aqui.

VL- Benavente terá também um plano de mobilidade? Já existe algum projeto?

SF – Sim, também está previsto, mas ainda não existe projeto. Vamos avançar passo a passo, perceber como funciona a solução em Samora Correia, corrigir eventuais erros e depois implementar noutras zonas. Também financeiramente não temos outra forma de conseguir chegar a todo o lado.

VL- Estamos a aproximar-nos do final da entrevista. O que espera de 2027 e que compromissos pode assumir relativamente aos projetos que pretende concretizar?

SF – Espero que seja um ano mais tranquilo a todos os níveis. O conhecimento que vamos adquirindo dos processos com que trabalhamos diariamente dá-nos outra tranquilidade e uma capacidade diferente para lidar com os temas.

Temos ainda muitas obras a terminar, mas também vários projetos em carteira.

VL – Pode concretizar alguns desses projetos para termos uma ideia do que o concelho pode esperar no próximo ano?

SF- Posso falar-lhe de quatro projetos. Já referi a creche que vai nascer em Benavente. No próximo ano queremos também dar os primeiros passos na construção de uma creche em Samora Correia. Vamos ainda avançar para projetos de execução de dois parques urbanos: um no Porto Alto e outro em Benavente. Foi notícia há pouco tempo que Benavente é o concelho do distrito de Santarém com menos árvores e menos sombra.

VL – Essa informação reforçou a necessidade de avançar com os parques urbanos ou os projetos já estavam previstos?

SF – Já estavam em curso, mas essa notícia deu-nos ainda mais força para os concretizar. Queremos que as obras avancem e que as pessoas tenham locais para descontrair, estar em família e aproveitar zonas verdes. Todos sabemos que o aquecimento global é uma realidade. Quanto mais árvores cortarmos, mais calor teremos nas ruas e mais problemas de saúde surgirão. A educação continuará a ser uma grande aposta, assim como a atração de parceiros económicos que criem emprego de qualidade. Queremos também divulgar o nosso património, que é vastíssimo, e investir na construção e reformulação das nossas áreas verdes.

VL – Para terminar, onde gostaria de ver o concelho de Benavente daqui a 15 anos? Sei que ainda tem três anos deste mandato, mas que futuro gostaria de construir para o município?

SF – Gostava que Benavente fosse uma referência. Que as pessoas dissessem: “Vamos passar um dia ao concelho de Benavente porque temos muito para fazer lá”. Temos uma excelente gastronomia, mas quero também que existam espaços onde as pessoas, mais novas ou mais velhas, com filhos ou sem filhos, possam passar tempo e usufruir do território. Quero espaços culturais com atividade. Voltámos, por exemplo, a ter sessões regulares de cinema no Cineteatro de Benavente, que é um espaço privilegiado para isso. Em Samora Correia temos também uma agenda cultural preenchida. É isso que queremos: um concelho onde as pessoas tenham motivos para estar, viver e aproveitar aquilo que temos para oferecer.

Veja a entrevista em vídeo na integra no nosso site em valorlocal.pt

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