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Do mar às margens do Tejo, os avieiros preservam tradição centenária de pesca e união

Os avieiros são uma comunidade piscatória que tem as suas origens na Vieira de Leiria, uma pequena vila do concelho de Leiria onde o mar sempre foi mais do que uma paisagem. Durante gerações, a pesca representou o sustento das famílias, moldando modos de vida, tradições e uma relação profunda com a natureza. No entanto, durante os meses de inverno, quando o mar se tornava agreste e a pesca mais difícil, surgiu a necessidade de procurar outras formas de subsistência. Foi nessa procura que descobriram a pesca fluvial e encontraram no Tejo uma nova oportunidade para continuar a viver daquilo que melhor sabiam fazer.

Este foi um processo natural que começou a acontecer a partir da década de 1930, há quase um século. Vindos da costa atlântica, os avieiros começaram a chegar a vários pontos do Ribatejo, fixando-se sobretudo junto ao rio Tejo. Alhandra, Póvoa de Santa Iria e Vila Franca de Xira tornaram-se alguns dos locais escolhidos por estas famílias que traziam consigo não apenas os seus barcos e redes, mas também uma identidade muito própria. Um desses exemplos foi a família de Maria do Céu, atual presidente do Rancho Típico Os Avieiros de Vila Franca de Xira. “Quem faz vida no mar não tem horários e o rio segue as mesmas regras”, começa por contar a presidente do rancho, hoje com 62 anos. “Regiam-se através da maré, se tivesse boa maré às 3 da manhã, era nessa hora que iam.”

Sem estudos nem instrumentos modernos, aprendiam a interpretar os sinais da natureza. O movimento das águas, a posição do sol, as fases da lua ou a direção do vento eram suficientes para orientar o trabalho de quem passava a vida entre o rio e a terra. Como resume Maria do Céu, “era o que a vida lhes ensinava”.

Nessa altura, a rotina pouco mudava. Os dias começavam cedo e terminavam tarde. Passavam por pescar nos seus barcos de madeira feitos à mão, trazer o peixe para vender, alimentar a família e só depois remendar as redes para deixar tudo pronto para a pesca do dia seguinte. Era uma vida de sacrifício e resistência, mas também de uma ligação profunda ao rio, que acabava por ditar o ritmo dos dias.

Com o passar dos anos, os modos de vida e as tradições foram-se transformando e a comunidade avieira não foi exceção. Hoje já não se vende peixe com o cesto equilibrado no topo da cabeça, nem se percorrem quilómetros para chegar aos mercados, mas os avieiros continuam a marcar presença nos mercados municipais para vender o seu peixe fresco. Se antes a viagem seguia o ritmo das estações do ano, agora muitas famílias mantêm-se junto ao rio, preservando uma ligação que atravessa gerações.

Apesar de ter uma forte ligação à comunidade, Maria do Céu tentava sempre afastar-se do mar e da pesca. Como admite, “pesquei durante uns anos, mas nunca gostei”. Ao longo da vida teve vários barcos e acompanhou de perto esta realidade, mas houve um dia, em 1987, que a marcou para sempre. Nessa manhã saiu para apanhar lambujinhas na companhia de uma colega, sem imaginar que aquela viagem poderia ter sido a última. “Estava descansada no barco, quando olho para o horizonte, o céu estava a ficar muito escuro e rapidamente o tempo caiu sobre nós.” Entre a chuva intensa, o vento e a agitação das águas, uma peça de roupa acabou por ficar presa no motor e, com isso, Maria perdeu o controlo da embarcação. Apesar de estarem perto da margem do rio, o barco acabou por virar. As duas mulheres foram socorridas pelos bombeiros, mas o susto ficou para sempre na memória. Essa foi a última vez que pescou e jurou que nunca mais voltaria a fazê-lo.

Agora, o legado continua através do seu filho, que promete manter viva a tradição familiar. Maria do Céu explica que “apesar de nem eu nem o meu marido termos seguido essa vida, ele decidiu agora dar continuidade a esta história”. E como ele, há outros jovens que continuam a olhar para o rio com outros olhos. Numa altura em que muitas tradições enfrentam o risco de desaparecer, o grande objetivo dos avieiros é garantir que a comunidade continua viva e que a sua história não se perde com o passar do tempo.

Ao mesmo tempo que crescer na comunidade dos avieiros era sinónimo de pobreza e de andar descalço pelas ruas, também significava viver rodeado por uma forte rede de apoio. Apesar das dificuldades, Maria do Céu recorda esse período com carinho e garante que “foram tempos muito felizes”. Maria recorda um episódio que continua a definir a cultura avieira até aos dias de hoje. Conta que “a casa onde a minha avó vivia tinha ardido e toda a comunidade juntou-se para ajudá-la a ter onde dormir”. Numa época em que havia pouco para repartir, havia sempre espaço para ajudar quem mais precisava.

No entanto, a comunidade acabava por se manter bastante fechada. Como recorda, “não era bem visto que os avieiros namorassem com pessoas de fora da comunidade. Viviam muito entre eles”. A vida fazia-se entre famílias que partilhavam os mesmos hábitos, as mesmas dificuldades e as mesmas tradições. Hoje essa realidade já mudou e o rancho folclórico é um dos exemplos dessa transformação.

Aldeia dos Avieiros em Vila Franca de Xira

O rancho entrou na vida de Maria do Céu aos 18 anos, quando começou a namorar com o atual marido, uma vez que era um dos dançarinos. Entretanto o marido saiu, mas Maria ficou, não para dançar, mas para ajudar quem geria a associação, Manuel do Vau. Como resume, “fui ficando e, sem dar conta, já passaram 30 anos”. Aqui, Maria fez um pouco de tudo, desde ensaiadora, dirigente, dançarina e até cantadeira.

Mais do que preservar danças e cantares, o rancho ajuda a aproximar comunidades que durante décadas viveram separadas. É um espaço onde a memória continua viva, mas onde também se constroem novas relações. Foi desta convivência que se reforçou a ligação entre duas das figuras mais emblemáticas do Ribatejo: os avieiros e os campinos.

Apesar das suas diferenças, a verdade é que as suas histórias andam de mãos dadas. Maria do Céu recorda que “quando os avieiros começaram a fixar-se junto ao Tejo, algo muito interessante aconteceu. No verão, durante o dia trabalhavam no campo e de noite iam para o rio”. Ao longo dos anos, as duas comunidades cruzaram-se e partilharam experiências, ajudando a construir uma identidade ribatejana única. Por isso, como resume Maria do Céu, são duas figuras que “não se anulam, mas sim se completam”.

Foi precisamente esta ligação entre diferentes tradições ribatejanas que esteve em destaque na Procissão de Nossa Senhora dos Avieiros, integrada no XII Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo, que todos os anos junta centenas de pessoas à beira-rio. Entre embarcações, trajes tradicionais e momentos de convívio, a celebração transforma-se numa homenagem à história das comunidades que cresceram em redor do Tejo. Maria do Céu considera que estes momentos continuam a ter um significado especial porque “é sempre bonito ver todas as pessoas juntas nestes momentos”.

Além disso, há várias atividades que o rancho folclórico realiza ao longo do ano, desde espetáculos por todo o país até convívios que acontecem na sua sede, o Centro de Artes do Rio Manuel do Vau. Sobre essa dinâmica, explica: “Fazemos vários almoços para grandes grupos. Começámos a introduzir sopas e comida para facilitar a comunidade até que nasceu a ideia de organizar aqui almoços para grupos e assim todos os fundos revertem a favor da comunidade.”

Mais do que angariar receitas, estas iniciativas ajudam a manter viva uma herança que continua a passar de geração em geração e que faz dos avieiros uma das comunidades mais singulares do Ribatejo.

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