A história nem sempre fica apenas registada em livros ou nas memórias das suas gentes. Em muitas localidades, sobrevive através das tradições, dos bordados, das danças e dos costumes que passam de geração em geração. Em Glória do Ribatejo, esse património continua bem vivo graças ao trabalho desenvolvido por associações e coletividades que, ao longo do ano, promovem iniciativas para preservar a identidade da vila. Entre elas destaca-se o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo, que há décadas desempenha um papel fundamental na valorização da cultura local.
Para conhecer melhor o trabalho desenvolvido pela associação e a importância da preservação destas tradições, o Jornal Valor Local esteve à conversa com Rita Cachulo Pote, diretora técnica e presidente da associação. “Somos mais do que apenas um grupo de Rancho Folclórico, também temos uma forte componente de investigação. Já temos sete livros publicados e centenas de peças de artesanato que nos levam às raízes da tradição da Glória do Ribatejo”, começa por contar.
Uma das componentes fortes do grupo relaciona-se com as exposições que vão acontecendo na sua sede. A mais recente consistiu na “Exposição dos Cartazes” que esteve patente a 4 de julho deste ano, e que assinalou o 70.º aniversário da associação. A exposição correspondeu à quase totalidade de festivais de folclore realizados por este agrupamento, ao longo dos tempos. “Obrigou-nos a olhar para os cartazes de divulgação de uma outra forma. Aumentamos a escala e decoramos o salão com eles. Foi muito positivo”, salienta Rita.
Mas o trabalho não fica por aqui. Um dos grandes resultados desta investigação aconteceu em 2014, momento em que foram documentados e analisados os Lenços dos Namorados. “Estiveram aqui várias artesãs que replicaram vários lenços que agora temos aqui expostos.”
Desde o século XIX que há registos de as mulheres da Glória bordarem estes lenços para oferecerem aos seus namorados. No pano eram bordados símbolos, e em alguns casos, têm-se revelado verdadeiros quebra-cabeças, sempre que se quer investigar a história de cada lenço.
Quando saber bordar era tão importante como cozinhar e cuidar da casa
Rita explica que à semelhança de cozinhar e cuidar da casa, saber bordar e costurar era quase um requisito para casar, por isso as meninas aprendiam a fazê-lo desde novas. O resultado eram centenas de lenços que continham as iniciais dos namorados e não só, por vezes também continham as iniciais dos amigos de ambos. “Era quase como se fosse um Facebook da altura”, resume a diretora técnica. Os registos mais antigos levam-nos até ao Século XIX.
Há histórias de mulheres com vastas coleções para oferecerem aos namorados, que depois os levavam à cintura. Cada um era feito para simbolizar a fidelidade e o amor. “Há lenços com corações e cruzinhas, pombinhas- símbolos da paz com uma corrente e uma cruz, corações com chaves, raminhos que assentam em três hastes”, descreve Rita Pote.
Os Bordados da Glória do Ribatejo não se resumiam aos Lenços dos Namorados. Entre as peças mais características encontram-se também os talegos, pequenos sacos em tecido utilizados para transportar refeições rápidas durante dias de trabalho. À semelhança dos lenços, eram cuidadosamente bordados e, em muitos casos, as mulheres faziam um exemplar para si e outro para o namorado.
Mais de dois séculos depois, a arte dos Bordados da Glória do Ribatejo continua bem viva. Para Rita Cachulo Pote, esse mérito deve-se, em grande parte, ao trabalho desenvolvido pelo grupo na preservação e divulgação deste património.
“O grupo teve um papel muito importante nesse processo. Temos apostado na investigação, na realização de exposições, na sensibilização da população e na publicação de livros. A ideia é recuperar e valorizar toda a história que faz parte da vila, para que não seja esquecida.”
Embora a costura já não seja uma prática tão comum como noutros tempos, continuam a existir mulheres de diferentes gerações que mantêm viva esta tradição, produzindo peças inspiradas nos princípios dos Bordados de Glória do Ribatejo. Além das toalhas e outros trabalhos mais tradicionais, a técnica é hoje aplicada a artigos contemporâneos, como carteiras, cintos ou capas para telemóveis.

O desejo de chegar à Unesco
Como forma de salvaguardar grande parte do seu património imaterial associado aos bordados e artes do pormenor, a Câmara Municipal avançou com a inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, cuja aprovação aconteceu em 2022. Mas este é apenas o primeiro passo.
Numa segunda fase é necessária a recolha de mais material de investigação etnográfica, com registos fotográficos/vídeo e um plano detalhado de salvaguarda para proteger e promover a prática. Só depois a inscrição deverá ser submetida à UNESCO.
“A Câmara Municipal ainda não mostrou interesse. Temos feito o nosso trabalho de aprofundar a história e recolher informação. Já temos muito material e investigação feita. Falta apenas o interesse municipal.” Este ano, em 2026, celebrou-se o quarto ano da inclusão dos Bordados da Glória do Ribatejo no Inventário Nacional do Património Cultural e Imaterial.
“Esta inscrição, de reconhecimento nacional, veio reforçar e enaltecer o extraordinário trabalho das mulheres glorianas que, ao longo de várias gerações, imprimiram rigor, perfeição e orgulho ao seu enxoval e às peças do quotidiano. Estes bordados transportam uma simbologia única: dizem muito de quem os cria, de quem os usa e de quem os recebe”, salienta a autarquia através de um artigo publicado no site oficial.




