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Cegada lança coleção de livros para preservar a memória dos espetáculos de teatro

A Companhia Cegada, sediada em Alverca do Ribatejo, lançou a coleção editorial «Contra-Cena», uma iniciativa que pretende preservar a memória das suas produções teatrais e aprofundar as temáticas abordadas em palco. O primeiro volume é dedicado ao espetáculo «A Gorda», adaptação do romance de Isabela Figueiredo, estando já em preparação uma segunda publicação sobre «Os Transparentes», baseado na obra do escritor angolano Ondjaki.

Em entrevista ao Valor Local, Rui Dionísio, responsável artístico da companhia, explica que o projeto nasceu da vontade de contrariar a natureza efémera do teatro. «Por muito que tentemos manter um espetáculo em cena durante a maior quantidade de tempo possível, há sempre uma quantidade de matérias, de interesses, de pensamentos, de reflexões que acabam por terminar quando os espetáculos terminam as suas apresentações», sublinha.

A coleção, coordenada editorialmente por Miguel Falcão, procura precisamente prolongar essa reflexão. Cada publicação reúne contributos de investigadores, entrevistas com as equipas artísticas e criativas e análises sobre os assuntos que motivaram a escolha das obras. A intenção é editar dois cadernos por ano, associados às principais criações da companhia.

O primeiro volume parte de «A Gorda», numa versão cénica de Marta Dias, e aborda questões como a obesidade, o retorno dos portugueses após a Revolução de Abril e diferentes perspetivas sobre Lisboa, com particular destaque para o olhar feminino presente na obra de Isabela Figueiredo. O livro inclui ainda a primeira cena do espetáculo, permitindo ao leitor conhecer parte do universo teatral, embora não pretenda reproduzir integralmente o texto dramático.

Para Rui Dionísio, o cruzamento entre investigadores e criadores constitui uma das principais mais-valias do projeto. A coleção pretende oferecer diferentes leituras sobre os espetáculos e permitir que, daqui a dez ou quinze anos, o público continue a compreender as questões que estiveram na origem das produções.

A segunda publicação, prevista ainda para este ano, será dedicada a «Os Transparentes», espetáculo inspirado no romance homónimo de Ondjaki, com versão cénica de Marta Dias e encenação de Manuela Paulo. A produção passou por várias cidades portuguesas e também por Espanha, tendo despertado particular interesse junto de espectadores angolanos e afrodescendentes, pela relação da obra com Luanda.

A ligação ao território é outra das características que Rui Dionísio destaca. A companhia desenvolve a sua atividade a partir do Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, em Alverca, procurando estabelecer pontes entre a criação artística, a investigação e as comunidades locais. «Tudo o que a Companhia Cegada faz nasce neste território para o resto do mundo», afirma.

A propósito da relação com o público, Rui Dionísio revela que as diferentes atividades da companhia mobilizam aproximadamente nove mil espectadores por ano. Destes, cerca de três mil assistem à programação do Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, outros três mil acompanham os espetáculos em circulação e os restantes participam nas Noites do Largo do Pelourinho.

Com uma lotação de 77 lugares, o Teatro-Estúdio aposta em temporadas que permitem uma relação próxima com os espectadores, em vez de concentrar grandes audiências numa única apresentação. Segundo o responsável, as criações próprias permanecem habitualmente três semanas em cena, enquanto as companhias convidadas apresentam os seus espetáculos durante períodos mais curtos.

A companhia, que assinalou este ano quatro décadas de atividade, pretende dar continuidade à coleção «Contra-Cena» e admite mesmo recuperar produções mais antigas para futuras publicações. O objetivo é construir, ao longo dos anos, um arquivo editorial que permita revisitar os espetáculos e os debates que suscitaram, muito depois de terem saído de cena.

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