Em 2011, os moradores de Coutada Velha uniram-se num abaixo-assinado para contestar os maus cheiros provenientes das indústrias avícolas.. O objetivo era chamar a atenção para um problema que, diziam, comprometia há anos a qualidade de vida da população.
A origem do problema remonta à instalação de várias explorações avícolas e suinícolas na envolvente da Coutada Velha, entre elas os aviários explorados pela Avipronto e posteriormente pela Lusipintos. Durante anos, os moradores denunciaram maus cheiros intensos e alegados impactos ambientais, levando a sucessivos protestos e abaixo-assinados. A revisão do Plano Diretor Municipal de Benavente, em 2019, determinou a deslocalização destas atividades num prazo de cinco anos, que terminou com o encerramento das explorações em 2024.
Oito anos mais tarde, em 2019, o Valor Local regressou ao tema e constatou que pouco tinha mudado. Os odores nauseabundos persistiam, acompanhados por denúncias de alegada poluição nas linhas de água, num cenário que, segundo vários moradores, levou dezenas de famílias a vender as suas casas e a abandonar a localidade. Hoje, passados 15 anos desde a primeira contestação pública, a questão mantém-se: afinal o que mudou na Coutada Velha, em Benavente?
Encontramos na rua, nesta reportagem na Coutada Velha, Nuno Santos, proprietário do único café na aldeia que nos contou em detalhe tudo o que aconteceu nos últimos anos. “Sofríamos com um cheiro nauseabundo, algo que chegou a ser bastante comum, nesses anos, à semelhança do que acontecia por exemplo quando passávamos pelo Rio Trancão e também havia cheiro”, começa por contar.
Apesar de a população ter acabado por se habituar, novos hábitos foram sendo ganhos para tentar contornar a situação. Nuno Santos vive na localidade desde 1977 e diz que, ao longo dos anos, acabou por criar rotinas para contornar o problema. “Tinha de encontrar os melhores horários para estender a roupa, para o cheiro não ficar entranhado”. Tudo isto era o dia-a-dia da população, até ao fecho das operações do aviário e da pecuária existentes até ao ano passado, algo que Nuno descreve como um alívio para todos.
Embora agora sem maus cheiros, o impacto destas indústrias ainda se sente na Coutada Velha com um novo cenário a ganhar forma. “As pessoas estavam cansadas desta situação e com a especulação do aeroporto, foram embora. As casas e terenos começaram a vender-se por valores exorbitantes.”
Hoje, o cheiro desapareceu, mas o silêncio permanece. Apesar de a Coutada Velha estar lentamente a renovar-se com a chegada de novos moradores, o movimento continua a ser escasso. À exceção do Miclas Café, onde ainda se cruzam alguns habitantes, as ruas mantêm-se praticamente vazias, com poucos carros.
Para Nuno Santos, esta realidade traduz-se também em menos clientes. “Ainda antes da pandemia existiam cerca de quatro cafés aqui. Todos fecharam e agora só eu me mantenho.” O café permanece aberto desde 2002 e Nuno explicou-nos que antes o negócio dava para alimentar os quatro cafés e agora, nem dá para um.
Na sua opinião, esta drástica mudança aconteceu não só devido à má qualidade de vida, como também à pandemia que se instalou em 2020. No entanto, quer a Junta de Freguesia como a Câmara Municipal de Benavente, estão prontas para dar uma nova vida à Coutada Velha, que por enquanto se manifesta em obras e melhorias das infraestruturas.
“Estão a ter lugar obras da Águas do Ribatejo para melhorar o saneamento e a qualidade do abastecimento”, começa por explicar Ivete Belo Mateus, a presidente da Junta de Benavente, que salienta ter um papel importante, principalmente, na denúncia do problema.
Além disso, Sónia Ferreira, presidente da Câmara de Benavente explica que tem acompanhado a questão de perto, e neste momento, “o feedback transmitido pelos moradores reflete uma maior tranquilidade e melhores condições para quem ali reside”. Apesar dos esforços desenvolvidos pelo município, a autarca considera que o “desfecho deste processo demonstra a persistência dos moradores”. Defende ainda que, quando estão em causa reivindicações justas, “estas devem merecer a devida atenção da Câmara Municipal, que deve ser mais ágil e assumir um papel mais ativo na pressão junto das entidades competentes para que atuem”.

O fim dos maus cheiros trouxe novos desafios
Depois de terem sido encerradas as infraestruturas, Nuno Santos explica ainda que houve uma tentativa de transformar as instalações abandonadas em armazéns para ração. “Os moradores fizeram uma exposição à Câmara e, entretanto, já foram retiradas as placas que estavam no local.”
Este acaba por ser uma questão mais profunda do que aparenta. A verdade é que quando as infraestruturas encerraram muitos animais e insetos, como ratos e baratas acabaram por se tornar um problema. “Se fossemos à pecuária durante a manhã ou final do dia, víamos ratazanas enormes. Não acreditei, até ir lá e ver.” Este problema de saúde pública transferiu-se para junto da população no momento que as instalações avícolas fecharam, quando as pragas de animais partiram em busca de outros tipos de alimentos, o que causou infestações na Coutada Velha.
Depois de investirem em químicos e formas de os afastar das suas casas e terrenos, surgiu a ideia de transformar as infraestruturas em armazéns. “Se o espaço recebesse as tais rações, era certo que voltaríamos a ter problemas desta natureza”, salienta Nuno Santos.
No entanto, apesar desta exposição, a autarca Sónia Ferreira explica que essa nunca foi a intenção da Câmara Municipal. “O que tem vindo a acontecer é a realização de reuniões técnicas com proprietários, promotores e projetistas relativamente aos terrenos da Quinta das Necessidades e da Herdade da Calada”. Aqui o objetivo era enquadrar as propostas de desenvolvimento urbano que fossem compatíveis com o Plano Diretor Municipal.

Quando questionada sobre a recuperação ambiental da área após o encerramento da exploração, a Câmara Municipal refere que, durante o período de funcionamento, foram realizados vários estudos de impacto ambiental “cujos resultados enquadravam a atividade dentro da normalidade”. A autarquia acrescenta que qualquer intervenção futura nos terrenos terá de cumprir todas as exigências legais, ambientais e urbanísticas.
Neste momento, as infraestruturas dos aviários e pecuárias encontram-se encerrados, limpos e cercados, apesar de algumas cercas estarem no chão. “A situação está resolvida e sob vigilância. Os moradores tinham toda a razão, era um cheiro difícil suportar, mas posso dizer que agora está resolvido”, salienta Ivete Mateus.
Relativamente às obras e melhorias da Coutada, vão mais além da renovação do sistema de saneamento. O morador Nuno Santos explicou-nos que também foram acompanhadas de algumas intervenções nos passeios e estacionamentos no centro da Coutada Velha, junto à Igreja. “Não é funcional. Tiraram estacionamento e aumentaram o passeio, colocaram alcatrão novo e construíram um ringue. Agora, estão a mudar todo o sistema da água.”
No entanto, para a Junta esta é uma zona imperativa de investimento uma vez que é considerada uma das zonas onde ainda existe possibilidades de crescimento em Benavente. Na opinião de Ivete Mateus, Coutada Velha possui diversas vantagens para os futuros moradores, como qualidade de vida e a proximidade com a zona de Lisboa. Embora considere necessário um investimento principalmente na mobilidade e transportes.
Apesar de tudo isso, há rumores nas ruas da Coutada Velha que há planos para transformar o antigo aviário e pecuária em condomínios privados, algo que Nuno não considera surpreendente. “Agora está tudo parado, não sabemos o que vai acontecer. Fala-se por aí que podem vir a ser condomínios e isso sim, seria uma mais-valia.”
Essa mesma motivação foi manifestada pela Presidente da Câmara Municipal de Benavente, Sónia Ferreira. “A nossa intenção passa por promover uma ocupação compatível com o Plano Diretor Municipal, valorizando aqueles solos urbanos com vocação habitacional e evitando que permaneçam devolutos.”




