O vinho português está melhor, conquista prémios e chega a um consumidor cada vez mais conhecedor e exigente. Mas por detrás destes sinais positivos há um setor que enfrenta dificuldades: o consumo está a diminuir, começa a existir excesso de produção e há regiões onde os problemas de escoamento assumem já particular gravidade. Foi este o retrato, entre a confiança no produto nacional e a preocupação com o mercado, que José Arruda, secretário-geral da Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV), traçou em entrevista ao Valor Local durante a Alma do Vinho, em Alenquer.
As declarações foram prestadas antes de o Governo anunciar novas medidas para responder às dificuldades do setor vitivinícola e acabam por antecipar alguns dos problemas que estiveram na origem dessa intervenção. “Os vinhos estão cada vez melhores e cada vez temos mais prémios”, começa por salientar José Arruda, que destaca igualmente a evolução da oferta enoturística portuguesa, considerando-a “seguramente uma das melhores ofertas em termos mundiais”.
Portugal conta com 14 regiões vitivinícolas, com características distintas, uma diversidade que permite associar o vinho à gastronomia, património, cultura e identidade dos diferentes territórios. É precisamente nesta ligação que a AMPV tem concentrado uma parte importante da sua atividade. Mas o setor vive também um momento exigente. “Atualmente existe, em termos mundiais e em Portugal também, uma redução no consumo do vinho. É um problema mundial”, afirma José Arruda.
O secretário-geral da AMPV refere igualmente a existência de “algum excesso de produção” e dificuldades de escoamento, com impactos diferentes consoante as regiões. Aponta particularmente o Douro, que considera estar a atravessar “uma crise muito grande”. Apesar das dificuldades, identifica uma alteração profunda no perfil dos consumidores nas últimas décadas. “Cada vez mais temos consumidores que sabem exatamente aquilo que querem e conhecem bem o vinho.”
Há hoje, segundo José Arruda, maior preocupação em conhecer as castas, perceber as temperaturas adequadas de serviço, escolher os copos e estabelecer a ligação entre vinho e gastronomia. Uma mudança que também coloca novos desafios à restauração. “Sabemos para onde temos de ir quando um restaurante trata bem o tema do vinho, sabe promovê-lo e aconselhá-lo aos seus clientes”.
A promoção dos territórios é uma das áreas em que a AMPV tem concentrado a sua atividade. José Arruda dá como exemplos iniciativas dirigidas às novas gerações, como a eleição da Embaixadora dos Territórios Vinhateiros de Portugal, conquistada este ano por Maria Bertrand, representante do município de Azambuja, e o Concurso da Canção Rural.
Outro projeto em desenvolvimento envolve as freguesias e aldeias vinhateiras. Segundo José Arruda, cerca de 300 freguesias já aderiram à iniciativa, apoiada pelo Turismo de Portugal, que pretende valorizar localidades cuja identidade está fortemente ligada à vinha e ao vinho.
O responsável destaca ainda o papel dos municípios na multiplicação de festas e certames dedicados ao setor. Só durante setembro, afirmou, já ter passado por “10 ou 15 eventos ligados ao vinho”, em diferentes regiões do país. “Os municípios trabalham muito a promoção do vinho e do território e os eventos têm um papel muito importante também para o turismo.”
As declarações de José Arruda ao Valor Local foram recolhidas durante a Alma do Vinho, em Alenquer, antes de o Governo anunciar uma nova resposta às dificuldades que atravessam o setor. A 21 de setembro, o Ministério da Agricultura e Mar anunciou a Linha de Tesouraria – Setor Vinícola II, no valor de 110 milhões de euros, destinada a assegurar liquidez às cooperativas e empresas transformadoras para o pagamento das uvas das campanhas de 2025 e 2026 e para a reestruturação de créditos anteriores.
Na fundamentação da medida, o Governo aponta precisamente alguns dos problemas que José Arruda tinha identificado na entrevista ao Valor Local: abrandamento do consumo nos mercados nacional e internacional, dificuldades de escoamento da produção e acumulação elevada de stocks. Os empréstimos destinados ao pagamento da produção aos viticultores poderão beneficiar de uma bonificação de juros até 75 por cento.
No caso específico do Douro, região que José Arruda destacou como estando a atravessar uma “crise muito grande”, o Governo já tinha aprovado no início de setembro um apoio extraordinário até 12 milhões de euros destinado aos viticultores que não consigam escoar a produção na campanha de 2026/2027.




