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“Os Últimos Maiorais” quer preservar identidade e memória dos campinos ribatejanos

A paixão por contar histórias surgiu aos 16 anos, quando Teresa Silva começou a trabalhar no mundo da locução na rádio Cartaxo. Foi aqui que se tornou a voz dos textos que o seu pai, José Mimoso, produzia. A vida foi seguindo e, entretanto, Teresa passou por diferentes estações quer na rádio, quer na televisão. “O meu pai é campino e por isso sempre acompanhei de perto este mundo. Estava sempre com os campinos e acabava, muitas vezes, por fotografá-los”, começa por contar a locutora de 53 anos.

Mas foi em 2024 que José Mimoso sugeriu começar a filmar as suas histórias e relatos da vida do campo, e para isso precisava da ajuda da sua filha. “Disse-me que quando morresse queria deixar momentos registados, sendo que eu também sempre tive esse desejo. Por isso quando o meu pai o sugeriu, aproveitei a oportunidade.” Além de registar momentos, José também queria homenagear a profissão e os seus colegas que morreram nos últimos anos. 

E foi desse desejo de preservar a memória que nasceu “Os Últimos Maiorais” que assenta em três pilares essenciais: um documentário, um livro e ainda um museu.

“Tínhamos de começar com o documentário porque os maiorais mais velhos têm entre 70 e 80 anos. Por isso é essencial começar a trabalhar nos depoimentos.” As histórias são uma forma de retratar a vida no campo dessa altura, que incluía muitas noites ao relento enquanto se pastava o gado.

“Estamos a falar de homens que viveram uma vida inteira a cavalo, e muitas vezes, dias inteiros, e noites ao relento nas lezírias do Ribatejo, que só vinham a casa de 15 em 15 dias ou de 8 em 8 dias. Homens que guardam histórias que nunca foram escritas e se não as registarmos agora, desaparecem para sempre.”

Por isso, quando Teresa Silva começou a pensar neste tema, sabia que não bastava homenagear o passado. “Era tão importante falar do passado, como também do presente e do futuro. A partir daqui nasceu a ideia de criar um livro, e dar um maior passo em frente, com um museu”.

Apesar de o projeto ter arrancado oficialmente em meados de 2025, já chegou ao coração das pessoas. “Estava focada em depoimentos ribatejanos, mas a verdade é que também havia campinos no Alentejo, embora com outras nuances.” Por isso, uma alentejana contactou o projeto para que pudessem contar a história do seu pai, que tinha sido diagnosticado com um problema cancerígeno e queria deixar as suas memórias. E assim, o projeto foi crescendo, sempre com o carinho das pessoas.

“A verdade é que fazer um documentário não é barato e não tínhamos dinheiro para continuar. Por isso começámos a apostar em doações.” Em menos de um mês, conseguiram angariar 2 mil euros, mas os problemas não se ficaram por aqui. “Nessa pausa, foi detetado cancro colorretal ao meu pai e as prioridades mudaram.” Atualmente, José Mimoso está livre de cancro, embora ainda se encontre em recuperação.

“Desde que comecei o projeto, só sinto o amor das pessoas pela história ribatejana e o carinho que têm pelos campinos. Afinal, não é só futebol.” As gravações do documentário vão regressar durante o mês de abril.

Quando estiver concluído, o documentário será exibido em centros culturais pelo país fora. “Vai ser ainda oferecido um exemplar a cada um dos campinos que participaram”. Além disso, o realizador tem ainda a ambição de concorrer a festivais internacionais de cinema.

Agora, a missão passa pela angariação de verbas com vista à publicação do livro e construção do museu. Como tal, decorrerão leilões de quadros, cujo valor reverte na totalidade para o projeto.

Campinos serão imortalizados no âmbito deste projeto

“Temos vários pintores que nos oferecem as suas pinturas. Um deles é Fernando R.S Maria e tivemos esta ideia de leiloar. No entanto, haverá ainda opções disponíveis para venda nos eventos a efetuar.”

Relativamente ao museu, o terreno já está assegurado, no entanto, “falta construir.” Por isso, o museu ainda está presente como uma ideia, mas promete viajar por toda a história dos campinos desde 1920, com as tradições que tinham e mantinham, até aos dias de hoje.

O museu vivo misturará várias áreas artísticas, desde a pintura à literatura, e pretende mostrar como eram os trajes antigos e a vida de um campino. “Vamos ter também um anfiteatro para acolher espetáculos.”

Por sua vez, o livro terá uma função ligeiramente diferente. “Queremos falar do passado, presente e futuro. Isto inclui as tradições dos campinos na culinária, como faziam o torricado e que ingredientes utilizavam, por exemplo. Além disso, quero ainda incluir um dicionário com expressões campinas que se diluíram no tempo”.

Um dos parceiros de “Os Últimos Maiorais” é a Câmara Municipal do Cartaxo e a Alfaiataria Ribatejo, esta última tem-se “mostrado cem por cento disponível para ajudar o projeto a custo zero”. “A alfaiataria conhece o meu pai desde sempre e foi ele quem os ensinou a fazer os trajes da forma tradicional.”

“Os Últimos Maiorais” vão estar na Festa do Vinho do Cartaxo, e no Dia do Campino, 1 de maio, vão subir a palco para apresentar o projeto. “Vamos estar ainda na Feira Nacional da Agricultura e nas Festas do Cartaxo.”

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