A frase de Pedro Ribeiro resume o grau de dificuldade vivido no Cartaxo durante os anos mais duros da intervenção da troika, num contexto financeiro particularmente exigente e que, segundo o próprio, colocava o município numa posição mais frágil do que a de outras autarquias da região.
Quando assumiu a presidência da Câmara em 2013, o cenário já era conhecido, mas revelou-se ainda mais grave do que o antecipado. “Sabíamos de uma situação financeira muito complexa e isso foi estruturante para o nosso programa”, recorda. Ainda assim, a realidade ultrapassou as expectativas iniciais. “Logo à primeira auditoria interna percebemos que a dívida era bastante maior do que aquela que estava contabilizada”.
Esse momento marcou o arranque de um mandato condicionado desde o primeiro dia. A escassez de liquidez obrigou a recorrer a mecanismos excecionais para garantir o funcionamento básico da autarquia, incluindo o pagamento de salários. “Foram tempos muito desafiantes”, resume, recordando um período em que a gestão municipal se aproximava, muitas vezes, de uma lógica de sobrevivência.
Num contexto nacional já fortemente marcado pela austeridade, o Cartaxo enfrentava dificuldades acumuladas, herdadas de anos anteriores, que se vieram somar às restrições impostas pela troika. A prioridade foi clara e assumida desde o início: travar o agravamento da situação financeira e recuperar a credibilidade do município. “Para termos futuro, tínhamos de começar pelo saneamento financeiro”.
Essa opção teve consequências diretas no plano de governação. Projetos estruturantes ficaram adiados, nomeadamente em áreas consideradas essenciais. A educação era uma das principais apostas do executivo. “Sempre entendemos que a educação é um alicerce fundamental para o desenvolvimento de uma comunidade”, sublinha Pedro Ribeiro.
A ambição passava pela requalificação do parque escolar e pela criação de melhores condições para alunos, professores e famílias, numa lógica de investimento no futuro. “Queríamos garantir que os nossos jovens saíssem mais preparados, com mais oportunidades, com mais ferramentas para construir o seu projeto de vida”, afirma.
No entanto, a realidade financeira impôs limites claros. A falta de recursos obrigou a adiar intervenções e a gerir expectativas. A educação manteve-se como prioridade estratégica, mas sem a capacidade de execução desejada. “Não era possível fazer tudo ao mesmo tempo”, reconhece.
Também ao nível das infraestruturas desportivas, da mobilidade e do desenvolvimento económico existiam planos definidos. A criação de melhores acessos, o reforço dos parques empresariais e a melhoria das condições para atrair investimento eram objetivos assumidos, mas que acabaram condicionados pelo contexto financeiro.
A gestão municipal passou a assentar numa lógica de rigor absoluto. “Não havia margem para erro nem para má despesa”, sublinha. A necessidade de equilibrar contas obrigou à adoção de medidas difíceis, com impacto direto na população. O aumento de impostos municipais, o corte de apoios a freguesias e coletividades e a contenção no investimento público foram algumas das decisões tomadas.
Apesar das dificuldades, Pedro Ribeiro destaca o papel dos trabalhadores do município, que considera fundamental para atravessar esse período. “Vestiram a camisola”, afirma, referindo que muitos fizeram trabalho extraordinário sem o apresentar para pagamento. “Foi um esforço coletivo, com grande sentido de responsabilidade”.
Ainda assim, o antigo presidente reconhece que grande parte do projeto político ficou por concretizar. “Ficou quase tudo por fazer daquilo que era o nosso horizonte”, admite, sublinhando que a prioridade dada ao saneamento financeiro acabou por limitar a concretização de obra visível. Essa realidade viria a ter reflexos políticos.
Do saneamento financeiro à mudança política no Cartaxo
A derrota do Partido Socialista nas eleições autárquicas de 2021 marcou o fim de um ciclo prolongado de governação no concelho e evidenciou o peso político de uma década marcada por fortes constrangimentos financeiros.
Quando Pedro Ribeiro assumiu a presidência da Câmara, o município encontrava-se numa situação particularmente delicada, com problemas que vinham de mandatos anteriores e que foram agravados pelo contexto nacional da intervenção da troika. A necessidade de equilibrar contas, reduzir dívida e garantir o funcionamento básico da autarquia impôs uma gestão focada no rigor e na contenção.
Ao longo dos anos, esse caminho traduziu-se em decisões difíceis e, muitas vezes, impopulares. O aumento de impostos municipais, a redução de apoios a freguesias e coletividades e a limitação do investimento público acabaram por ter impacto direto na perceção da população sobre o trabalho desenvolvido.
Apesar de, no final do mandato, a Câmara apresentar sinais de maior equilíbrio financeiro, o esforço de recuperação não se traduziu numa resposta visível às expectativas dos cidadãos em matéria de obra pública e melhoria do espaço urbano. “As contas não ganham eleições”, sintetiza Pedro Ribeiro, numa leitura que reflete a tensão entre a necessidade de rigor financeiro e a exigência política de resultados concretos.
A passagem de uma maioria absoluta do Partido Socialista para uma vitória do PSD em 2021 pode assim ser lida à luz deste contexto. O peso de uma herança financeira difícil, o impacto prolongado das políticas de austeridade e a escassez de recursos para investimento criaram um ambiente de desgaste político que acabou por abrir espaço a uma alternativa.
Mais do que um episódio isolado, o caso do Cartaxo ilustra como as consequências da troika, combinadas com problemas estruturais anteriores, continuaram a influenciar o poder local muitos anos depois, condicionando decisões, prioridades e, em última análise, os próprios resultados eleitorais.
Quando deixou a autarquia, em 2021, a situação estava mais estabilizada, mas o desgaste político acumulado acabou por ter reflexo nas urnas. “As contas dos municípios não ganham eleições”, afirma. “As pessoas querem ver obra no terreno, querem ver melhorias no seu dia-a-dia”.
Quinze anos depois, o testemunho de quem esteve no centro das decisões ajuda a compreender que o impacto da troika foi muito além dos indicadores macroeconómicos. No plano local, deixou marcas profundas na gestão, na capacidade de investimento e na própria dinâmica democrática dos territórios.




