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O enigma das águas escuras da Exide: denúncias, metais pesados e um passivo ambiental por esclarecer

Durante décadas, os relatos foram-se acumulando em Vila Nova da Rainha. Primeiro em conversas de café, depois entre trabalhadores e empresários da zona industrial, mais tarde através de denúncias formais dirigidas às entidades do Estado. Cheiros intensos a queimado, poeiras, corrosão acelerada de materiais metálicos, suspeitas de infiltrações no solo e episódios descritos como “irrespiráveis” em determinados dias começaram há muito a fazer parte do quotidiano de quem trabalha nas imediações da Exide Technologies Recycling II, empresa dedicada à reciclagem de baterias de chumbo.

Em 2024, o Valor Local revelou as denúncias da Jular, empresa localizada junto à Nacional 3, cujo responsável, Amaro Santos, acusava a Exide de promover um “espetáculo degradante” através da libertação de poeiras e emissões atmosféricas potencialmente perigosas. Na altura, o empresário relatava prejuízos acumulados devido à corrosão acelerada de estruturas metálicas, telheiros, equipamentos e materiais armazenados na empresa. Falava também em ardor nas vias respiratórias, forte cheiro ácido e episódios em que “não se conseguia respirar” devido ao peso do ar vindo da unidade industrial vizinha.

A denúncia evoluiu, entretanto, para tribunal. Pelo meio surgiram exposições dirigidas à IGAMAOT, APA, CCDR-LVT, Ministério Público e restantes entidades com competências ambientais. A Jular alega que a atividade da Exide terá provocado danos materiais, degradação de equipamentos, contaminação atmosférica e suspeitas de infiltração de contaminantes nos solos e águas subterrâneas. A empresa fala mesmo num “crime ambiental continuado” que, acusa, se arrasta há demasiados anos sem uma resposta clara do Estado.

Agora, em 2026, o caso ganha nova dimensão com a formação de uma extensa bolsa de águas escuras junto à Nacional 3, nas imediações da Exide. As imagens rapidamente começaram a circular entre empresários e trabalhadores da zona industrial e reacenderam as suspeitas antigas sobre aquilo que poderá existir no subsolo daquela área. Em Assembleia Municipal recente, o deputado do Chega, José Carlos Matos, falou do assunto, mas a resposta do presidente da Câmara, Silvino Lúcio, foi no mesmo sentido de outras dadas sobre este tema no passado – as entidades do Estado fiscalizam e não apontam problemas.

“Continuamos completamente às escuras sobre o que as entidades andam realmente a fazer”, afirma agora Amaro Santos ao Valor Local. O empresário acredita que existe “um forte nível de contaminação” e acusa as autoridades de passividade perante um problema que considera antigo e estrutural. “O que ali existe é um autêntico buraco a céu aberto. Quando chove, as águas transbordam e infiltram-se nos terrenos. O que podemos estar a ver são escorrências do aterro onde foram depositadas escórias da fundição das baterias.”

Amaro Santos considera que o problema ultrapassa largamente a questão visual daquele charco de águas paradas. “Estamos a falar de solos, infiltrações, águas subterrâneas e de anos e anos disto. Neste país o crime compensa”, atira. O empresário recorda inclusivamente episódios antigos ligados à zona industrial. “Isto não é de agora. Já nos anos 80, num dia de verão, nos terrenos onde hoje está a Modis, os cavalos foram beber a um ribeiro que ali existia e ficaram lá.”

Solos com elevadas concentrações de materiais pesados

As suspeitas ganharam ainda maior dimensão após análises laboratoriais realizadas a amostras recolhidas nas imediações da unidade industrial. Segundo documentação remetida às autoridades ambientais, os resultados apontam para concentrações elevadas de metais pesados no solo. Uma das análises refere valores de chumbo total na ordem dos 5200 mg/kg, quando o valor de referência indicado era de 120 mg/kg. Também o zinco apresentou valores superiores aos parâmetros considerados aceitáveis.

Na denúncia enviada às entidades oficiais, a Jular sustenta que estes resultados “constituem forte indício” da emissão para a atmosfera de elementos tóxicos “em quantidade superior à legalmente admitida”.

Os documentos descrevem ainda “forte cheiro ácido”, libertação regular de fumos escuros e episódios de deposição de poeiras nas instalações vizinhas. A empresa fala igualmente em degradação acelerada de estruturas metálicas, equipamentos e materiais, alegadamente provocada pela exposição continuada às emissões atmosféricas provenientes da unidade de reciclagem de chumbo.

Importa, contudo, referir que as análises foram efetuadas pelo laboratório acreditado ISQ LABQUI, embora a recolha das amostras tenha sido realizada por iniciativa da denunciante. Ainda assim, os valores encontrados acabaram por reforçar as dúvidas e preocupações já existentes há vários anos naquela zona industrial.

Trabalhadores da Jular temem pela sua saúde

No terreno, os relatos continuam a multiplicar-se. Cristina Almeida, trabalhadora da Jular há cerca de sete anos, fala num cheiro intenso a queimado sobretudo durante o calor. “Nota-se quando estão a queimar algo”, refere ao Valor Local. Apesar de trabalhar na área administrativa, diz temer pela saúde dos colegas da produção, mais expostos ao ambiente exterior devido aos pavilhões abertos. Conta ainda que um pintor da empresa desenvolveu problemas respiratórios e lembra a passagem da Polícia Judiciária pela empresa na sequência das denúncias apresentadas.

Já João Paulo Simões descreve um ambiente particularmente agressivo em dias de nevoeiro. “Quando está nevoeiro o filme ainda é mais tenebroso.” Fala em cheiro intenso a queimado, corrosão de materiais e suspeitas antigas de contaminação ambiental. Sobre o lago formado junto à EN3 não esconde a preocupação. “A vegetação morreu toda ali. O ácido deve ter corroído aquilo tudo.” Acredita igualmente que os furos e águas subterrâneas da zona possam estar contaminados.

O caso ganhou ainda maior dimensão em 2024, quando um motorista que, durante anos, transportou mercadorias para a Exide decidiu falar ao Valor Local sob anonimato. O trabalhador descreveu práticas que considerava preocupantes no manuseamento dos materiais provenientes das baterias usadas. “Era tudo despejado no chão, ou para dentro de paletes ou cubas de plástico”, relatou na altura. Segundo o próprio, grande parte do material transportado continha chumbo proveniente do interior das baterias, que acreditava representar “perigo para o meio ambiente” devido à eventual evaporação de partículas para a atmosfera. Os carregamentos chegavam a Portugal vindos de países como China ou Índia, em contentores marítimos selados.

Apesar das suspeitas levantadas ao longo dos anos, recorde-se que em 2019 o Ministério do Ambiente descartava a existência de um cenário de poluição atmosférica associado à Exide, afirmando na altura “não existirem sinais de ocorrências verificadas”, mesmo após visitas e averiguações realizadas por entidades ambientais governamentais.

A própria associação ambientalista ZERO decidiu, entretanto, questionar formalmente a CCDR-LVT e a Agência Portuguesa do Ambiente sobre o caso. Numa carta enviada às entidades, a associação refere ter recebido informação relativa à existência de “águas residuais com origem em terrenos da empresa Exide”.

Ao Valor Local, Rui Berkemeier, da ZERO, admite a possibilidade de existir “algum passivo ambiental” associado ao local. O ambientalista considera improvável que se trate de uma descarga direta da atividade atual da fábrica, mas admite que as fortes chuvas possam ter arrastado contaminantes acumulados ao longo de muitos anos.

“Aquilo claramente não são águas naturais”, afirma. Berkemeier explica que a Exide não produz caudais de águas residuais compatíveis com a dimensão do lago entretanto formado, admitindo antes a hipótese de materiais contaminantes antigos terem sido arrastados pelas águas da chuva após alterações no escoamento natural dos terrenos.

“Há claramente uma situação de poluição e ela tem de ser resolvida”, refere. Ainda assim, admite que neste momento continuam a faltar análises independentes que permitam perceber exatamente que substâncias estão presentes naquelas águas escuras. “Podem ser metais, sulfatos ou outros contaminantes, mas sem análises não podemos tirar conclusões definitivas.”

O responsável da ZERO deixa também críticas ao funcionamento da fiscalização ambiental em Portugal. Considera que muitos destes casos acabam por só ganhar visibilidade após denúncias ou queixas formais e admite que determinados passivos ambientais antigos possam escapar aos mecanismos normais de inspeção.

Entidade oficiais referem que empresa cumpre parâmetros

As respostas das entidades oficiais continuam, porém, marcadas pela divisão de competências e pela prudência institucional. A CCDR-LVT refere ao Valor Local que, relativamente às emissões gasosas monitorizadas entre 2023 e 2025, “não foram identificadas ultrapassagens dos Valores Limite de Emissão fixados no TUA”. A entidade esclarece, contudo, que essa análise se refere exclusivamente às fontes fixas de emissão gasosa acompanhadas no âmbito das suas competências.

Já todas as restantes componentes ambientais, incluindo monitorização de águas superficiais, subterrâneas e avaliação integrada da licença ambiental PCIP, são remetidas para a Agência Portuguesa do Ambiente. O Valor Local contactou esta entidade bem como a IGAMAOT mas não obteve resposta. Num ofício enviado à Jular em novembro de 2022, a IGAMAOT confirmou que a Exide Technologies Recycling II era alvo de inspeções regulares no âmbito dos regimes PCIP e SEVESO, relacionados com prevenção e controlo integrado da poluição e acidentes graves.

A entidade revelou que, na sequência de ações inspetivas realizadas nesse ano, foram detetados incumprimentos relacionados com os requisitos de qualificação dos operadores de tratamento de resíduos associados ao fluxo de pilhas e acumuladores.

Segundo a IGAMAOT, foi emitido um mandado para correção das irregularidades identificadas, tendo posteriormente sido realizada nova inspeção em outubro de 2022, altura em que a entidade concluiu que a empresa deu cumprimento às medidas impostas.

Também a Câmara de Azambuja admite existir “preocupação, insegurança e intranquilidade” junto da população e do tecido empresarial. Nas respostas enviadas ao Valor Local, a autarquia refere que tem mantido contacto permanente com a APA e restantes entidades fiscalizadoras, defendendo uma monitorização “permanente, rigorosa e transparente”.

Ainda assim, as respostas da Câmara mantêm um tom prudente e remetem grande parte da responsabilidade para os organismos ambientais do Estado. O município admite, contudo, que “quando existem dúvidas sobre impactos ambientais ou sobre a qualidade do ar, essas dúvidas não podem ser ignoradas nem desvalorizadas”.

GNR de Alenquer diz que só conhece uma queixa

Já a resposta da GNR está a causar estranheza entre empresários e trabalhadores da zona industrial. Segundo apurou o Valor Local, a força de segurança, em declarações ao nosso jornal, diz apenas ter registo de uma única queixa formal ao longo dos anos, algo difícil de compreender perante o histórico de denúncias, processos, exposições ambientais, ações judiciais e intervenções de diferentes entidades no caso. Chegou ao conhecimento do nosso jornal de uma ação que teve lugar por parte daquela força de segurança na empresa nos últimos dias onde até retroescavadoras estavam no local, mas não conseguimos confirmar junto do destacamento.

Uma das empresas vizinhas afetadas será a SIVA — Sociedade de Importação de Veículos Automóveis. Ao Valor Local, a empresa confirmou apenas que tomou “as medidas que entendeu necessárias”, recusando comentar o caso por este “se encontrar em investigação”.

A posição da SIVA acaba por reforçar a ideia de que o problema ultrapassa largamente uma simples disputa empresarial, mas ao contrário da Jular, aqui reina o silêncio e a Siva prefere não apontar o dedo publicamente embora seja do conhecimento geral, o passivo, alegadamente, provocado pela empresa vizinha nos automóveis do grupo.

Fiequimetal refere que empresa investe na segurança e ambiente

Do outro lado, surge também a visão dos trabalhadores da própria indústria da reciclagem de chumbo. Fábio Roxo, dirigente sindical ligado à Fiequimetal e representante dos trabalhadores da Exide na unidade da Castanheira, reconhece os riscos inerentes ao setor, mas defende igualmente os investimentos feitos pela empresa nos últimos anos em matéria de segurança e proteção ambiental.

O sindicalista recorda que os trabalhadores lidam diariamente com chumbo em diferentes estados — líquido, gasoso e em pó — e admite que se trata de uma atividade exigente e potencialmente perigosa. Explica que existem análises regulares ao sangue para controlo da exposição ao chumbo e que os trabalhadores defendem mesmo uma redução da idade da reforma devido ao desgaste associado ao setor.

“Trabalhamos com componentes perigosos, nomeadamente chumbo, que todos sabemos os problemas que podem trazer”, admite.

Ainda assim, considera que a empresa “tem investido bastante” em filtros, sistemas de segurança, equipamentos de proteção e mecanismos de controlo ambiental. Roxo diz não possuir conhecimento técnico suficiente para validar as suspeitas relacionadas com escorrências ou contaminação associadas ao lago formado junto à EN3, mas reconhece que a perceção pública em torno deste tipo de unidades industriais é inevitavelmente sensível. “Ninguém gosta de ter uma recicladora perto de casa”, afirma.

Ao mesmo tempo, lembra que a reciclagem de baterias também desempenha um papel importante do ponto de vista ambiental. “Estamos a falar de chumbo e ácido sulfúrico. Se isto não fosse reciclado era enterrado ou queimado. É um pau de dois bicos.”

O silêncio da Exide acaba, entretanto, por aumentar ainda mais o clima de suspeição em torno do caso. O Valor Local enviou várias questões à empresa relacionadas com este dossier, mas até ao fecho desta edição não foi recebida qualquer resposta.

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