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Em Vila Franca de Xira há passeios junto ao rio que ajudam a combater a solidão

Diretamente da Dinamarca, a Pedalar Sem Idade tem um simples propósito, mas transformador, de combater a solidão e isolamento social através de passeios gratuitos pelas cidades. O projeto já está em Coimbra, Cascais, Almada, Guimarães e desde 2024 está também em Vila Franca de Xira.Todos os passeios são feitos em bicicletas adaptadas, que são chamadas de trixós, e são sempre conduzidas por voluntários. Para compreender melhor o papel deste projeto, o Valor Local acompanhou uma destas saídas pela cidade, junto da responsável Inês Pestana e alguns idosos.

“Fazemos parte de um movimento internacional que nasceu em 2012 na Dinamarca. Atuamos em 12 cidades e a verdade é que existe uma grande problemática sempre presente, a solidão e isolamento social das pessoas mais velhas e mobilidade reduzida”, começa por contar Inês Pestana. Por isso, é essencial apostar em iniciativas como estas, para que seja possível acompanhá-las e “usar o trixó como um instrumento que vai muito mais além do passeio. É uma aposta na interação e intergeracionalidade.”

Estes passeios podem acontecer de duas formas: independente, de quem esteja nas suas próprias casas e procura algo dinâmico e diferente para a sua rotina, como através das instituições, desde centros de dia ou lares. “A maioria dos nossos passeios aqui em Vila Franca são de utentes institucionalizados.” Para participar é simples, basta enviar mensagem privada através das redes sociais, ligar ou deslocar-se à junta de freguesia para ter apoio na marcação.

Por mês, podem ser realizados até 50 passeios, no entanto estão sempre condicionados às condições climatéricas e disponibilidade dos voluntários. “Temos sempre as inscrições abertas e a nossa intenção é sempre fidelizar as pessoas. Não é um voluntariado pontual, é onde se desenvolve confiança e muitas relações pessoais. Cada passeio é uma aprendizagem, há sempre novas histórias.”

Em Vila Franca de Xira há cerca de 20 pessoas formadas e 10 voluntários ativos. “Todos os voluntários passam por todo um processo para aprenderem a guiar os trixós e todas as competências sociais que devem cumprir.” Um dos voluntários que está no projeto desde o começo é Alberto Brás, de 71 anos. “Sempre gostei de pedalar e andar de bicicleta, por isso quando vi que existia um projeto Pedalar sem Idade captou-me a atenção. Isto proporciona sorrisos, não só a mim como também a quem passeio.” Por já ser reformado, Alberto acaba por ter maior disponibilidade nos dias úteis e diz já ter passeado pessoas de todas as idades. “Não trabalhamos apenas com idosos. Já acompanhei jovens de várias idades e, curiosamente, muitos deles são mais novos do que eu.”

Utentes do projeto disfrutam de um dia diferente

Nestes passeios, Alberto foca-se em proporcionar bons momentos. “Há pessoas que mal se diz Bom Dia, passam o passeio todo a falar, já tenho ouvido histórias que nunca sonhava.” Uma delas foi de uma senhora que trabalhava na fábrica Covina em Santa Iria de Azóia em Loures, que contou toda a sua vida de trabalho por lá. Há outros que preferem apreciar a paisagem. “É provocar sorrisos e ver que gostam de passar. Já encontrei quem não quisesse vir, mas depois aperceberam que é bom. Este passeio é agradável junto ao Tejo e o feedback é sempre positivo.”

Um desses exemplos é a Maria Estrela Joaquim, um dos residentes da ABEI, sediada em Vila Franca de Xira. “Estar aqui junto ao Rio é uma maravilha. Foi a primeira vez que estive neste passeio. Dá uma sensação de liberdade e é muito bom.” Está há apenas uns meses na IPSS e desta vez foi aconselhada a vir passear e não podia deixar de passar. “É bom sair de lá, ver outras caras, sentir o vento.”

Mas não ficamos por aqui, Odete Cardoso dos Santos é a segunda vez que participa neste passeio e o resultado é sempre positivo. Depois de uma vida cheia, ao vender croquetes caseiros na praia, ser mãe depois dos 40 anos, agora, está há cerca de ano e meio nos cuidados do ABEI e apesar da fala já estar arrastada após ter sofrido um AVC, uma coisa é certa: “Gosto muito destes passeios. Para a próxima venho novamente.  O senhor Alfredo é muito simpático e andou connosco à procura de uma rosa, mas não encontramos.” Sempre que participa nestas saídas, Odete gosta de levar consigo uma rosa. Desta vez, porém, não a encontrou. “Ninguém gosta de estar fechada durante muito tempo. É ótimo sair da rotina. Gosto de falar com as pessoas.”

Num concelho onde o envelhecimento e isolamento da população está tão presente, são iniciativas como a Pedalar Sem Idade que podem fazer toda a diferença. Mais do apenas um passeio de trixó, cada saída transforma-se numa oportunidade para criar laços, partilhar memórias e devolvê-las à comunidade.

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