A tradicional Terça-Feira Nocturna, realizada ontem, 6 de Outubro, na Palha Blanco, ficará marcada como uma noite de particular significado para os Forcados Amadores de Vila Franca de Xira. Mais do que uma corrida de toiros, foi uma verdadeira celebração da identidade e da história do Grupo, assinalada pela despedida de Vasco Pereira do comando e pela passagem de testemunho a Rodrigo Dotti.

Com toiros de Veiga Teixeira, sérios e bem-apresentados, mas de comportamento desigual, actuaram João Salgueiro, João Moura Júnior e António Prates. Salgueiro assinou uma passagem discreta, aquém do nível esperado. Moura Júnior protagonizou uma actuação de contrastes, com destaque para o quinto toiro, que lhe permitiu construir uma lide mais intensa e foi recolhido sob aplausos. António Prates confirmou a boa relação que tem vindo a estabelecer com Vila Franca, com duas actuações regulares e positivas, sobretudo a primeira.

Mas a noite era, sobretudo, dos homens da jaqueta de ramagens. Os Amadores de Vila Franca pegaram os seis Veiga Teixeira, numa prestação colectiva marcada pela entrega, pela entreajuda e pela responsabilidade de representar uma história que se escreve há décadas.
Rodrigo Andrade abriu a série com uma pega à primeira tentativa, bem ajudada por Rodrigo Dotti. Lucas Gonçalves concretizou à segunda. No terceiro toiro, Vasco Pereira entrou em praça para a sua última pega enquanto cabo do Grupo e resolveu à primeira, com a segurança que sempre caracterizou a sua forma de estar. No final, a volta à arena, primeiro acompanhado pelo cavaleiro e depois a solo, perante o público de pé, foi um dos momentos mais emotivos da noite e uma justa homenagem ao seu percurso.
Vasco Carvalho concretizou à segunda tentativa e Guilherme Dotti à quarta. A fechar a noite, Rodrigo Camilo rubricou uma excelente pega à primeira tentativa, com raça e determinação, numa intervenção que levantou o público das bancadas e encerrou da melhor forma uma noite que ficará marcada pela emoção e pelo significado.

Mas houve ainda outro momento particularmente simbólico: a jaqueta de ramagens voltou a ser vestida por homens que fazem parte da história do Grupo. Carlos Silva, David Moreira e João Luz regressaram à arena, recordando que a história dos Amadores de Vila Franca não pertence apenas aos homens que hoje os representam, mas também a todos aqueles que, ao longo das gerações, ajudaram a construí-la. E essa memória esteve igualmente presente na trincheira, onde outros antigos cabos e elementos do Grupo acompanharam de perto a despedida de Vasco Pereira e a entrada de Rodrigo Dotti. Foi uma imagem forte de união entre passado, presente e futuro, com várias gerações de forcados reunidas para testemunhar um dos momentos mais importantes da vida do Grupo.

Antes do início da corrida, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e a Junta de Freguesia prestaram homenagem a Vasco Pereira e a Rodrigo Dotti, num gesto que simbolizou o reconhecimento pelo caminho percorrido pelo cabo cessante e a confiança depositada naquele que agora assume a chefia do Grupo. Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara Municipal, e Ricardo Carvalho, presidente da Junta de Freguesia, marcaram presença neste momento de particular significado para a comunidade vilafranquense. Também os Forcados de Turlock se quiseram associar à homenagem, reforçando os laços de amizade e respeito que unem os dois grupos e que ultrapassam as fronteiras da própria arena.

Vasco Pereira despediu-se assim do comando deixando uma marca de compromisso e continuidade. Rodrigo Dotti recebeu o testemunho e assumiu uma responsabilidade que vai muito além da liderança de um grupo de homens: é a responsabilidade de preservar uma identidade, respeitar uma história e conduzir uma nova geração de forcados.

A Palha Blanco, com as bancadas cheias, respondeu à importância da noite e viveu com intensidade cada um destes momentos. E, perante a dimensão dos 125 anos da praça e a importância da passagem de testemunho na chefia dos Amadores de Vila Franca, Bernardo Alexandre pode dar por cumprida a missão de ter montado um cartel à altura da ocasião. Uma responsabilidade que ganhava ainda maior significado pela sua ligação ao Grupo, de que foi antigo elemento. Conhecedor, por dentro, da importância e do simbolismo desta noite para os Amadores de Vila Franca, Bernardo Alexandre reuniu argumentos taurinos à altura da efeméride e criou o enquadramento certo para uma corrida que ficará na memória dos vilafranquenses.

E talvez a imagem que melhor resuma esta noite seja precisamente essa: Vasco Pereira a entregar a chefia, Rodrigo Dotti a recebê-la, e à volta deles várias gerações de homens que vestiram e continuam a honrar as mesmas ramagens.
Na Palha Blanco, a história não terminou. Mudou de mãos. E, em Vila Franca, continua a ser escrita com coragem, memória e paixão.




