A população portuguesa está cada vez mais envelhecida. No entanto, este processo natural não tem de ser sinónimo de perda de autonomia, capacidades ou solidão. Foi precisamente com essa premissa que os municípios de Azambuja e do Cartaxo assinalaram o Dia Municipal para a Igualdade, com o evento “À Conversa… Envelhecer com Dignidade e Inclusão”, que teve lugar no Auditório do Páteo Valverde, em Azambuja. A tarde foi dedicada a temas como a promoção da qualidade de vida das pessoas idosas e a descoberta de novos caminhos para envelhecer, com a participação de especialistas e profissionais da área.
“O envelhecimento é uma conquista, mas também é um desafio. Tenho 55 anos e tenho a plena consciência de que já vivi mais do que vou viver. (…) À parte disso, fiz uma maratona há dois anos, estou a preparar-me para fazer um triatlo e terminei o meu terceiro pós-doutoramento há um ano”, começou por referir Luís Jacob, presidente-fundador da Rede de Universidades Seniores (RUTIS).
Segundo os dados apresentados, as pessoas com uma atitude mais positiva vivem mais e melhor. O mesmo acontece com quem mantém bons hábitos de saúde ao longo da vida, não sofre de stress por razões financeiras e tem atividades de lazer e de convívio social. “Este é o desafio de todos nós aqui. Lembrar do que já passou, mas também do que ainda tem por viver.”, deu conta.
No mesmo sentido, Susana António partilhou o seu testemunho enquanto fundadora da Associação Fermenta, responsável pelo projeto “A Avó Veio Trabalhar”, e explicou que o pior que pode acontecer “é morrer ainda em vida”. “A Avó Veio Trabalhar” é um espaço criativo onde cada pessoa idosa pode explorar a sua criatividade, desde os bordados à pintura, através de workshops e experiências culturais.
Uma das histórias que Susana trouxe a público foi a de Anabela, uma senhora que começou a frequentar o espaço depois de ficar viúva. “Fechou-se em casa, engordou, ficou deprimida até que uma vizinha a trouxe ao projeto.” Ao longo dos anos, Anabela conheceu novas pessoas e criou amizades, até passar a integrar um dos projetos d’”A Avó Veio Trabalhar”.
“Depois de um espetáculo, confessou-nos que foi para casa e abriu uma garrafa de champanhe para celebrar. Esse é o trabalho que nós fazemos, mesmo quando ninguém está a ver. Esta mulher teve a capacidade de celebrar a si mesma, com essa idade. Mesmo depois de achar que a vida já não lhe tinha nada para oferecer”, contou Susana António.
Mas os testemunhos não ficaram por aqui. Perante os desafios associados ao envelhecimento, têm surgido também projetos que procuram repensar a forma como se vive esta etapa da vida. As aldeias para seniores são um exemplo destas iniciativas, ao proporem modelos de habitação e de convivência pensados para promover a autonomia, combater o isolamento e proporcionar melhores condições de vida às pessoas idosas.
Um deles é “A Casa”, apresentado por João Lopes, um projeto que está em desenvolvimento, para acolher dezenas de idosos com a premissa de viver os últimos anos de vida de uma forma tranquila. “Três grupos de amigos, onde estou incluído, decidimos que enquanto tivermos capacidades físicas e cognitivas, queríamos gerir o nosso envelhecimento em comunidade.” A ideia passa por largarem as suas casas e mudar-se para uma cooperativa de propriedade coletiva, onde cada um tem habitação própria e salas comuns para as inúmeras atividades criativas. “O principal é que ninguém estará sozinho.”

O que estão a fazer os dois municípios
No Cartaxo, a promoção da qualidade de vida e da inclusão da população idosa passa também pelas respostas disponibilizadas pelo município. “Neste momento, temos vários projetos a decorrer, desde a parte desportiva para seniores até ao mais recente, IntegrArte — Inclusão pela Cultura, que promove vários workshops de pintura, teatro e música”, salienta Fátima Vinagre, vereadora responsável pelo pelouro da Ação Social da Câmara Municipal do Cartaxo. “Estas medidas são gratuitas de modo a dar resposta ampla a todos os idosos do município e por serem em comunidade, procuram também combater a solidão na velhice”. Relativamente ao acompanhamento prestado diretamente ao domicílio e o número de idosos abrangidos pelas respostas municipais, a autarca, quando questionada pelo Valor Local, não conseguiu avançar com dados concretos.
Em Azambuja estas respostas são fornecidas de diversas formas, desde várias atividades ao longo do ano como pela Universidade da Terceira Idade que inclui o transporte dos idosos desde as suas casas. A preocupação estende-se ainda aos cuidados ao domicílio, que a Ação Social do município assegura.
“Na área social, temos uma equipa multidisciplinar que vai até à casa das pessoas, com um programa de teleassistência”, começa por contar António Torrão, vereador com o pelouro da Ação Social. No entanto, explica que apesar de ajudarem idosos com problemas de mobilidade ou outras condições, muitas vezes, aquilo de que estas pessoas realmente precisam é apenas de conversar. “Daí ser importante este contacto. Nunca temos um horário estipulado para casa visita, tanto pode demorar uma como duas ou três horas.”
O vereador responsável pelo pelouro da Ação Social da Câmara Municipal de Azambuja sublinha ainda que medidas como esta permitem uma melhor preparação para os anos que estão por vir. “Antes havia quem não se preocupasse porque podia nem chegar a velho, mas cada vez mais é ao contrário, cada vez vivemos mais anos. E se calhar, até temos de começar a repensar as próprias políticas sociais.”




