Encontrar armazéns na zona de Porto Alto, não é uma surpresa, no entanto, nunca se esperou que a localidade ribatejana acolhesse um dos maiores centros com lojas chinesas em Portugal. O Centro POAO nasceu em 2011 e é uma plataforma de comércio de revenda no Porto Alto, principalmente de lojas chinesas. A superfície tem cerca de 80 mil metros quadrados e ocupação de 260 lojas. Este foi o resultado de um investimento de 40 milhões de euros. Passados estes anos, fomos procurar saber se o investimento produziu os resultados esperados, e se esta é apenas mais uma superfície comercial na região ou se faz a diferença para quem ali vende e compra.
Há cerca de 12 anos, o Centro POAO apesar de grande era um espaço que estava quase ao abandono, com várias lojas fechadas à espera de novos proprietários e um ritmo de negócio que parecia lento. No entanto, há cerca de dois a três anos atrás, este cenário mudou como nos contou o gestor do centro, Armando de Almeida. “Até já tínhamos uma longa lista de clientes à espera de arrendamento disponível.” Por isso, as obras de expansão do espaço estão em marcha, apesar de só terem avançado no começo de 2026. “Vamos ter mais de 80 lojas e a maioria já está arrendada.”
Mas nem sempre foi assim, como lembra o presidente da junta da Freguesia de Samora Correia, Jorge Paiva. “O centro foi feito no mandato António José Ganhão, mas durante muitos anos esteve parado. Há cerca de dois, três anos, o espaço revitalizou-se e desde então, sinto que tem corrido muito bem. Não sei se haveria alguma contrapartida na altura da construção, mas agora, não vejo qualquer desvantagem.”
Se em tempos, a vigilância era apertada, atualmente, qualquer um pode visitar o Centro POAO, dentro do horário de funcionamento. Há quatro corredores principais. Aconselha-se por isso a visita de carro. À primeira vista, este não parece ser um local de grandes encontros e alvoroços, mas a verdade é que há lojas bastante populares no Centro que trazem muito movimento à região.
Atualmente, as 260 lojas disponíveis estão todas ocupadas e pode encontrar-se um pouco de tudo, desde bijuteria, malas, roupa, fardas, mas também produtos cosméticos, artigos de tecnologia, brinquedos para os mais novos, peluches e muito mais.
Como qualquer cliente, o Valor Local visitou o Centro POAO e mesmo numa terça-feira à tarde, o estacionamento estava quase completo nas ditas ruas comerciais. Ao entrar em várias lojas, os cenários vão variando, em alguns locais há caixas de cartão por todo o lado e produtos sem estarem organizados, noutros casos parece que estamos numa loja regular de rua com tudo arrumado, limpo e quase estéril.
Esta também é uma das vantagens que leva os revendedores a escolher o Centro POAO. E ao falar com alguns comerciantes, percebemos que juntamente com o estacionamento, localização e as rendas acessíveis, o centro torna-se “irresistível” para qualquer revendedor. É a expressão que usam.
Ao entrar nas lojas, em quase todas tivemos a mesma experiência, encontramos chineses que ainda não são fluentes em português, que nos olham com alguma desconfiança, enquanto passamos pelos corredores. Outro detalhe que não passa despercebido é a presença de câmaras na maioria das lojas. Apesar de ser de revenda, estamos a entrar mesmo numa loja chinesa, semelhante às que normalmente encontramos pelas ruas. A única diferença é que funciona, justamente, naquela modalidade.
Apesar das especulações, nem todas as lojas têm apenas funcionários e proprietários chineses, apesar de serem a minoria. No entanto, o tratamento é exatamente o mesmo.
Embora este seja um centro de revenda, há várias lojas onde qualquer pessoa poderá comprar, mas há regras que têm de ser cumpridas. Estas ditas regras geralmente são colocadas na porta. Nuns locais é preciso comprar 10 unidades de cada peça, noutros basta fazer 50 euros de compras. Noutros casos, é preciso dar o comprovativo de atividade aberta, mas noutros não. É difícil de identificar os locais onde qualquer um poderá fazer compras, no entanto basta perguntar à entrada.
Além de estarem fisicamente no Centro POAO, a maioria das lojas também tem presença online e é por lá, onde também tratam de encomendas para qualquer ponto do País. No entanto, segundo os comerciantes, os clientes preferem deslocar-se e ver os produtos que estão a comprar de perto, e que consequentemente, vão também vender.
Por ser um centro comercial de revenda para lojas chinesas, o gestor do centro, sente que esta procura só tem aumentado nos últimos anos e a razão pode ser mesmo pela localização. “Este é um negócio muito particular e chegam aqui pessoas de todas as regiões do país, sem estarmos no centro de Lisboa. Para os chineses, Porto Alto é considerado próximo de Lisboa.”
Ao mesmo tempo, a região de Samora Correia é conhecida por ser uma das zonas onde a presença da comunidade chinesa é mais forte. “Mantêm a sua distância, mas nunca criaram qualquer problema de integração. O ideal seria que todas as comunidades que escolhem viver em Portugal fossem assim”, remata Jorge Paiva.
Mas há sempre um senão, e neste caso estamos a falar da pressão nas infraestruturas, estradas e habitação. “A verdade, é que quantos mais empresários ficam no Centro POAO, mais casas procuram para ficar na zona”. Agora, com o aumento do espaço, esta pressão será ainda mais sentida. Consequentemente, a saúde e a educação acabam por também sofrer com esta questão que se sente um pouco por todo o país.
“O estado das estradas está lastimável há uns anos e a tendência é para que piore. Fala-se que não haverá grandes intervenções nesse setor enquanto se espera pelo novo Aeroporto de Alcochete, mas a população não merece isso.”, refere o responsável do centro comercial.
Por isso, apesar de à primeira vista parecer um local abandonado, a verdade é que o Centro POAO é o epicentro dos negócios chineses no Porto Alto, cuja promessa, na opinião do gestor, continua e sempre se cumpriu: acolher lojas chinesas para revenda. Algo que o presidente da Junta também concorda. “Não sabemos se as pessoas acabam por contribuir para economia local, desde restaurantes a supermercados, mas sabemos que o Centro atrai centenas de visitantes de todo o País e isso, é sempre uma vantagem.”
No entanto, o Centro POAO tornou-se conhecido do público por uma polémica que envolvia um esquema de burla. As queixas surgiram em 2019, por parte de investidores chineses que alegaram ser vítimas de burla. Esta foi uma questão que preocupou a população, mas parece pertencer apenas ao passado.
A ideia, era entrarem no negócio para adquirir um visto gold em troca de autorização de residência. O gestor, acaba por referir, que esta questão está completamente resolvida, sem qualquer caso pendente. Já Jorge Paiva considera que não há qualquer reserva da população relativamente à polémica que se instalou em 2019. “O objetivo dos vistos gold tem o objetivo político de atrair pessoas com investimento para o país, o que só traz benefícios, embora haja sempre quem queira contornar a lei.”




