A renovação do protocolo entre a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e a SEAcoop – Social Entrepreneurs Agency, entidade responsável pela dinamização da Fábrica do Empreendedor no concelho, gerou um dos debates políticos mais intensos das últimas reuniões camarárias. Em causa esteve não apenas o investimento público associado ao projeto, superior a 80 mil euros, mas sobretudo a dificuldade em medir o impacto real de uma iniciativa apresentada pelo executivo socialista como uma resposta de proximidade ao desemprego e ao empreendedorismo local.
O projeto, em funcionamento desde 2020, que contava no ano de 2025, com duas técnicas no terreno, uma técnica de emprego e outra de empreendedorismo, foi defendido pela vice-presidente Marina Tiago, na última reunião de Câmara de abril, como uma estrutura complementar ao Instituto de Emprego e Formação Profissional, centrada no acompanhamento especializado e na capacitação dos munícipes. Segundo os dados apresentados pela autarquia, a Fábrica do Empreendedor realizou em 2025 um total de 481 atendimentos, promoveu 33 ações de capacitação com 461 participantes, ajudou à criação de dez negócios e contribuiu para a integração de 55 pessoas no mercado de trabalho. Mas os números acabariam por abrir a porta às críticas da oposição.
A Nova Geração foi a primeira força política a contestar frontalmente os resultados apresentados pelo executivo. O vereador Fábio Mousinho Pinto considerou que os dados revelam “resultados manifestamente curtos” para um concelho com mais de quatro mil desempregados. “Acreditamos que o empreendedorismo e a inovação não se vendem por catálogo”, afirmou, acusando a Câmara de privilegiar “o parecer em detrimento do ser”.
A coligação revelou ainda ter analisado os dez negócios apontados como casos de sucesso do projeto. E foi precisamente aí que o debate ganhou um tom mais duro. Segundo a Nova Geração, alguns desses negócios “não apresentam qualquer indício de estarem operacionais”, existindo referências a projetos localizados fora do concelho, atividades associadas a grandes redes imobiliárias e outros sem registo facilmente identificável.
A análise feita pelo Valor Local aos projetos referidos aponta sobretudo para pequenos negócios e atividades de autoemprego ligados a áreas como estética, yoga, jardinagem, biscates, lavandarias self-service, sistemas de rega, semijoias ou mediação imobiliária. Alguns mantêm presença ativa nas redes sociais ou atividade comercial visível. Outros apresentam uma expressão pública muito reduzida.
Também o Chega endureceu o discurso político em torno do protocolo. O vereador Barreira Soares classificou a iniciativa como “propaganda política mascarada” e criticou o investimento camarário face aos resultados obtidos. “Receberam menos de duas pessoas por dia”, afirmou durante a reunião, acrescentando que os números representam “11% de sucesso”.
O eleito foi ainda mais longe, acusando a autarquia de estar a “deitar verba pública para o lixo” sem definir objetivos quantitativos concretos. “Não confundimos intenção com resultado, nem marketing institucional com política pública eficaz”, declarou.
A CDU assumiu uma posição mais moderada, mas também deixou reservas relativamente ao impacto do projeto. Cláudia Martins considerou importante perceber “quantos empregos efetivos foram criados”, se os postos de trabalho “continuam ativos” e qual a “sustentabilidade dos projetos apoiados”.
Do lado do executivo, Fernando Paulo Ferreira respondeu defendendo que a Fábrica do Empreendedor não pode ser analisada apenas pelos números da criação direta de emprego. “Um desempregado precisa mesmo de apoio”, afirmou o presidente da Câmara, defendendo que o projeto oferece um acompanhamento “mais próximo e mais especializado” do que o disponibilizado pelo IEFP.
O autarca recordou ainda que projetos semelhantes existem em municípios como Cascais, Sintra, Lisboa, Oeiras ou Lagos, insistindo que a resposta pretende trabalhar situações de exclusão social, capacitação e empreendedorismo de proximidade.
Utilizadores do projeto vão a reunião de Câmara fazer a “defesa da honra” da Fábrica do Empreendedor
O tema regressaria dias depois a nova reunião de Câmara, desta vez durante o período reservado à intervenção do público, onde várias pessoas ligadas ao projeto defenderam a importância social da Fábrica do Empreendedor e o acompanhamento prestado a desempregados e públicos vulneráveis do concelho.
Paralelamente, uma consulta ao Portal Base.gov mostra que a SEAcoop mantém contratos públicos em várias áreas ligadas à capacitação, empregabilidade e empreendedorismo social. Entre eles surgem ações como o curso intensivo “JobPass+55”, adjudicado pelo Município de Sintra por 13.953 euros, além de iniciativas ligadas à Academia Y.ES de empreendedorismo social e outros programas de formação e intervenção comunitária. O Valor Local foi contactado por Manuela Gualdino do projeto para dar a conhecer a sua posição face ao travão colocado pela oposição, contudo a partir de determinada altura deixou de atender o telefone.
A discussão em torno da Fábrica do Empreendedor acabou assim por ultrapassar a simples renovação de um protocolo camarário, transformando-se num debate político mais amplo sobre a forma como são avaliados programas de empreendedorismo social e empregabilidade, áreas onde o impacto é frequentemente difícil de traduzir em indicadores concretos e imediatos.




