George Clooney foi sem dúvida o protagonista da abertura da 83.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza que decorreu de 2 a 12 de setembro. O famoso ator foi homenageado com o Leão de Ouro de carreira, uma bela forma de comemorar mais de quatro décadas como ator, realizador e produtor. Horas antes da cerimónia, na tradicional conferência de imprensa, falou de muito pouco que tivesse a ver com cinema. Houve mais interesse dos jornalistas na atualidade política internacional, e foi isso mesmo que prendeu a minha atenção.
Perguntaram-lhe pelo estado do seu país. Respondeu que é sempre otimista, que talvez vivamos hoje numa caquistocracia, mas “havemos de a ultrapassar”, que as eleições intercalares de novembro (nos Estados Unidos da América) servirão como travão e que em 2028 volta alguma normalidade. Saiu-lhe com a naturalidade do mundo e com isso lançou, de forma elegante, uma crítica muito forte.
Foi um diagnóstico duro seguido de alguma resignação disfarçada de otimismo. Caquistocracia, o governo dos piores, palavra grega com quatro séculos de intermitências, sempre pronta a ser desenterrada quando uma geração decide que os seus governantes são especialmente maus. O problema não é a palavra em si, nem o seu conceito, mas sim o contexto subjacente ao seu uso: a fé inabalável de que tudo ficará bem por mero decurso do tempo e do calendário eleitoral.
Já escrevi nestas páginas sobre alguém que passou vinte anos a caminho de casa, e sei que houve quem se revisse mais do que gostaria naquele texto sobre Ítaca. Para mim ficou a ideia de que uma travessia só faz sentido enquanto se sabe para onde se vai, e que o mar não perdoa quem navega à vista. Ora é isso que falta na resposta de Clooney: ele promete um regresso, mas não aponta o rumo que nos há-de levar até lá. Prometer que a normalidade voltará em 2028 sem dizer por onde se navega até 2028 não é otimismo, é ir à deriva, mas desta vez com data marcada.
Nem toda a gente confunde as duas coisas. Há quase um ano, em Nova Iorque, um jovem deputado venceu a eleição para a Câmara Municipal mais poderosa do mundo com um programa tão simples que cabia num cartaz: autocarros grátis, creches grátis, arrendamento controlado, tudo pago por quem mais tem. Zohran Mamdani, odeie-se ou adore-se, não passa despercebido e não se perde na vaguidão. Meses depois de tomar posse, parte do que estava no cartaz já saiu para a rua, e os nova-iorquinos têm-lhe respondido nas sondagens com uma aprovação que poucos presidentes de câmara conhecem ao fim do primeiro ano. Nem tudo foi cumprido, e ele não o esconde. É esse o preço de ter rumo: cumpre-se, atrasa-se ou falha-se, mas há sempre algo concreto contra o qual se pode medir o desvio. Quem não tem rumo nunca falha, porque nunca prometeu chegar a lado nenhum O exemplo pode servir de inspiração a políticos, novos e velhos.
Também em Portugal há quem pareça, finalmente, ter encontrado direção. José Luís Carneiro, depois de meses a gerir um partido mais preocupado em não se afundar do que em navegar, aparece agora apostado em preparar o PS para governar, e não apenas para sobreviver na oposição. Anda no terreno e pôs o custo de vida dos portugueses no centro da agenda. As sondagens mostram que o país não quer eleições antecipadas, e o PS tem até 2029 pela frente. A diferença para Clooney está no que se faz com esse tempo: não o esperar, mas usá-lo para construir o rumo que se há de propor quando chegar a hora.
Segue-se agora a discussão do Orçamento do Estado para 2027, e o método já se conhece. No debate da moção de censura, Luís Montenegro respondeu com um ligeiríssimo alívio no IRS e um suplemento extraordinário para os pensionistas: está apostado em gerir o presente para não ter de responder pelo futuro. Sintomáticas disso mesmo são as crescentes aparições de um fantasma do passado político do seu próprio partido, Passos Coelho, na comunicação social a avisar que “o tempo está a esgotar-se”.
Talvez a única forma de pôr fim ao governo dos piores seja não esperar que esta maioria se corrija a si própria, mas apostar numa direção que se atreva a divergir dela. Esta caquistocracia não se combate com mais paciência, combate-se com quem tenha coragem de remar contra a corrente que a sustenta.




