Portugal registou em 2025 máximos históricos de transplantes cardíacos e pulmonares, anunciou a Dra. Cristina Jorge, presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação (SPT). Do total de 948 transplantes realizados no país, 70 foram cardíacos e 90 pulmonares — recordes absolutos. No mesmo ano fizeram-se 525 transplantes renais, dos quais 88 de dador vivo, também o maior número de sempre nesta modalidade. Esta realidade actual é possível graças a vários desenvolvimentos da medicina.
Foi a 23 de Dezembro de 1954, no Peter Bent Brigham Hospital, em Boston, que dois gémeos de vinte e três anos entraram no bloco operatório. Richard Herrick tinha insuficiência renal terminal e tinha uma esperança de vida reduzida. O seu irmão gémeo, Ronald, era saudável.
O cirurgião Joseph Murray tinha uma hipótese que arriscou testar: se os órgãos rejeitados até então falhavam por reacção imunitária do receptor, um rim transplantado entre gémeos idênticos, geneticamente idênticos, não seria rejeitado. Felizmente a hipótese confirmou-se: foi o primeiro transplante renal bem sucedido da história. Richard recuperou, e até casou com a enfermeira que o tratara no hospital e teve dois filhos.
O problema seguinte a resolver era que, obviamente, a esmagadora maioria dos doentes não tem um gémeo idêntico disponível. A solução exigiria compreender e controlar a rejeição em receptores geneticamente diferentes dos seus dadores. Murray continuaria a trabalhar nesse sentido, vindo a realizar os primeiros transplantes renais com órgãos de dadores falecidos e a demonstrar que a insuficiência renal terminal deixara de ser necessariamente uma sentença de morte. Abria-se, assim, caminho para o transplante de outros órgãos — fígado, pâncreas, coração.
Em paralelo, outro investigador, E. Donnall Thomas, enfrentava um problema relacionado: como transplantar células da medula óssea sem que o enxerto atacasse o próprio receptor, a chamada reacção enxerto-contra-hospedeiro. Thomas demonstrou que células de medula óssea infundidas por via intravenosa conseguiam repovoar a medula do doente e produzir novas células sanguíneas — a base do tratamento actual de leucemias, anemias aplásicas e doenças hereditárias do sangue como a talassemia.
Em 1990, Murray e Thomas receberam em conjunto o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina, pelo seu contributo para dominar a rejeição em transplantação de órgãos e de células. As suas descobertas continuam, todos os anos, a devolver uma vida com mais qualidade a dezenas de milhares de doentes em todo o mundo para quem nenhum outro tratamento seria eficaz.




