Há uma frase que, de tão portuguesa, talvez devesse ser património imaterial: “sempre se fez assim”. Não é necessariamente uma frase má. Às vezes significa experiência, prudência, memória. O problema começa quando deixa de ser uma explicação e passa a ser um argumento. E é aí que, muitas vezes, a modernização encontra o seu maior obstáculo: não na falta de tecnologia, mas na dificuldade que temos em admitir que aquilo que funcionava ontem pode já não ser suficiente hoje.
Há dias, um amigo que ocupava um cargo executivo numa autarquia contava-me que queria modernizar alguns serviços. Nada de particularmente revolucionário: rever processos, simplificar procedimentos e substituir uma plataforma informática que já tinha alguns anos. A reacção de uma funcionária foi imediata e, de certo modo, irrefutável: “Mas este programa era o topo há 15 anos!”
Não consegui deixar de achar graça à frase. Não à funcionária, note-se, mas à lógica. Porque provavelmente era verdade. Há quinze anos, aquele programa podia muito bem ser o topo. Talvez fosse mesmo. Só há um pequeno detalhe: entretanto passaram quinze anos.
Na tecnologia, quinze anos não são exactamente um intervalo de tempo. São uma era.
Em 2011, o mundo ainda estava a descobrir o que fazer com os smartphones. Hoje, uma pessoa leva no bolso um computador incomparavelmente mais poderoso, paga sem carteira, trabalha à distância, faz uma videochamada com alguém do outro lado do planeta e, se quiser, pede a uma inteligência artificial que lhe escreva um texto, analise um documento, traduza uma língua ou lhe explique um assunto complexo em segundos.
E, no entanto, continuamos muitas vezes a discutir a modernidade com os critérios de 2011.
Talvez seja por isso que a inteligência artificial esteja a colocar uma questão muito mais interessante do que aquela que normalmente lhe fazemos. Não é apenas saber até onde conseguem ir as máquinas. É saber até onde estamos nós dispostos a ir.
Porque a inteligência artificial não é uma moda passageira. Podemos discutir os seus perigos e devemos fazê-lo. Podemos falar de privacidade, segurança, erros, desinformação, dependência tecnológica, direitos de autor e responsabilidade. Devemos regular, fiscalizar e, sobretudo, aprender a utilizá-la com inteligência. Mas a ideia de que isto vai passar, como passaram tantas outras modas tecnológicas, parece cada vez menos defensável.
Os números começam a ser suficientemente claros. Em 2025, 20% das empresas da União Europeia com pelo menos dez trabalhadores já utilizavam tecnologias de inteligência artificial, contra 13,5% no ano anterior. Em Portugal, eram 12%. Não é uma maioria, mas é uma mudança muito rápida para um fenómeno que ainda há pouco tempo parecia pertencer exclusivamente ao mundo das grandes empresas tecnológicas.
E há outra coisa que convém perceber: a inteligência artificial não chega sozinha. Chega acompanhada de uma transformação muito maior na forma como trabalhamos, produzimos, aprendemos e organizamos as nossas instituições. É também por isso que a Agenda 2030 coloca a inovação, a educação, o trabalho e a construção de sociedades mais eficientes entre os grandes desafios deste tempo.
O problema é que nenhuma agenda tecnológica consegue modernizar uma pessoa contra a sua vontade.
Podemos comprar computadores. Podemos contratar plataformas. Podemos desenvolver aplicações. Podemos instalar inteligência artificial. Mas, se continuarmos a fazer tudo exactamente como fazíamos antes, teremos apenas uma versão mais cara do passado.
E isto não é um problema dos funcionários públicos. Seria demasiado fácil e, francamente, injusto dizê-lo. A resistência à mudança existe em qualquer organização onde existam pessoas. Existe na Administração Pública, mas existe também no sector privado. Há empresas modernas com processos antigos, gestores que continuam a trabalhar como há vinte anos e departamentos inteiros que mantêm procedimentos porque ninguém teve coragem de perguntar se ainda fazem sentido.
Há pessoas que querem aprender e há pessoas que preferem que nada mude. Há funcionários públicos que procuram formação, que experimentam ferramentas novas e que percebem que a tecnologia pode melhorar o seu trabalho. E há, como em qualquer organização, quem veja cada mudança como uma ameaça ao equilíbrio que conhece.
Talvez a frase “sempre se fez assim” seja, no fundo, uma forma elegante de dizer “não sei se estou preparado para fazer de outra maneira”.
E aqui a inteligência artificial vai ser particularmente incómoda.
Porque vai obrigar-nos a distinguir trabalho de tarefa. Durante anos preocupámo-nos com a produtividade perguntando como fazer mais. Agora temos máquinas capazes de fazer determinadas coisas muito mais depressa do que nós. A pergunta passa a ser outra: o que queremos que as pessoas façam com o tempo que essas máquinas nos devolvem?
Um trabalhador que passa duas horas a copiar informação entre sistemas não está necessariamente a fazer um trabalho mais valioso porque o fez durante duas horas. Um técnico que perde uma manhã a procurar informação dispersa não está necessariamente a produzir mais valor do que produziria se tivesse essa informação organizada em cinco minutos. Uma pessoa que passa grande parte do dia a executar tarefas repetitivas não se torna mais indispensável por continuar a executá-las manualmente.
Talvez a inteligência artificial não venha, afinal, roubar-nos o trabalho. Talvez venha obrigar-nos a perceber quanto trabalho desnecessário fomos capazes de criar.
Porque o verdadeiro valor de um funcionário não está necessariamente em fazer aquilo que uma máquina também consegue fazer. Está em saber o que fazer quando a máquina termina.
A máquina pode resumir um processo. Alguém terá de decidir o que fazer com esse processo.
Pode encontrar padrões. Alguém terá de perceber o que significam.
Pode escrever um documento. Alguém terá de assumir a responsabilidade por aquilo que está escrito.
Pode dar uma resposta. Alguém terá de saber se a resposta merece confiança.
É por isso que aprender a trabalhar com inteligência artificial será uma das competências fundamentais dos próximos anos. Não apenas aprender a utilizar uma ferramenta, mas aprender a questioná-la, verificá-la e integrá-la no nosso trabalho sem entregar à máquina aquilo que deve continuar a ser uma responsabilidade humana.
E talvez seja aqui que esteja a parte mais difícil da revolução.
Não temos apenas de aprender coisas novas. Temos de aceitar que algumas das coisas que sabemos fazer muito bem podem deixar de ter o mesmo valor.
Isso é muito mais difícil.
É sempre mais fácil comprar uma máquina nova do que mudar uma rotina antiga. É mais fácil anunciar uma plataforma inovadora do que eliminar um procedimento que já não serve para nada. É mais fácil falar de transformação digital numa conferência do que chegar a uma sala e perguntar por que razão aquele processo continua a ser feito exactamente da mesma maneira há quinze anos.
E lá estará, inevitavelmente, alguém para dizer:
“Porque sempre se fez assim.”
É uma resposta curiosa.
Porque não responde à pergunta. Apenas explica por que razão ainda não a fizemos.
Talvez devêssemos começar a perguntar outra coisa: se começássemos hoje, faríamos assim?
Se a resposta for não, então talvez seja altura de mudar. Não porque uma máquina o exige. Não porque a inteligência artificial está na moda. Não porque alguém decidiu que temos de parecer modernos, mas porque o mundo mudou. E nós temos de aprender a mudar com ele.
A inteligência artificial está aí para ficar. A agenda tecnológica está lançada. As empresas estão a adoptar estas ferramentas, as escolas estão a tentar perceber como ensiná-las, os profissionais estão a descobrir como trabalhar com elas e as organizações estão a perceber, umas mais depressa do que outras, que ignorá-las não é propriamente uma estratégia.
Podemos resistir-lhe. Podemos ter medo. Podemos regulá-la. Podemos desconfiar dela. Podemos utilizá-la mal ou podemos fazer aquilo que, no fundo, sempre fizemos quando uma tecnologia mudou o mundo: aprender.
Só que desta vez há uma pequena diferença.
A inteligência artificial aprende depressa, talvez seja melhor começarmos a fazer o mesmo.




