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KNOK, empresa de telemedicina vai gerir Centro de Saúde de Azambuja

Concurso lançado pela ULS Estuário do Tejo chegou a estar avaliado em cerca de oito milhões de euros, quando previa duas USF modelo C no concelho. Entretanto, Aveiras de Cima avançou para uma USF modelo B e o cenário mudou. A adjudicação agora conhecida é de 3,68 milhões de euros. A Knok já está a recrutar médicos para Azambuja e gere desde agosto a primeira USF-C do país. Presidente da Câmara diz que ainda não foi informado oficialmente do desfecho do procedimento.

A KnokHealth Portugal vai gerir a futura Unidade de Saúde Familiar modelo C de Azambuja, depois de um concurso público internacional lançado pela Unidade Local de Saúde do Estuário do Tejo que se prolongou durante vários meses e ficou marcado por atrasos, dúvidas quanto aos concorrentes e uma contestação ao procedimento.

Na plataforma VORTAL encontra-se registada, desde o início de outubro, a adjudicação no valor de 3.681.437,40 euros, com data de 2 de outubro de 2026. A empresa, que construiu grande parte do seu percurso na área da telemedicina e da saúde digital, encontra-se também a recrutar médicos de Medicina Geral e Familiar especificamente para a USF-C de Azambuja, numa altura em que se prepara a entrada em funcionamento da nova unidade.

O desenvolvimento representa uma mudança significativa num processo que o Valor Local acompanha há vários meses. Em abril, o concurso encontrava-se ainda numa fase inicial de avaliação das propostas e levantava dúvidas quanto ao perfil e experiência de alguns dos concorrentes. Em agosto, continuava sem existir uma adjudicação conhecida e a própria ULS confirmava que o relatório preliminar do júri ainda não estava concluído.

Agora, pela primeira vez, existe um valor de adjudicação publicado na plataforma eletrónica utilizada no procedimento e a Knok já está a preparar no terreno a resposta que pretende instalar em Azambuja.

Concurso começou nos oito milhões, mas entretanto o cenário mudou

O concurso lançado pela ULS Estuário do Tejo tinha inicialmente uma dimensão diferente daquela que agora resulta da adjudicação conhecida. O procedimento previa a criação de duas USF modelo C, divididas em dois lotes: um destinado a Azambuja Sede e outro aos polos de saúde do concelho. O valor global inicialmente previsto ultrapassava ligeiramente os oito milhões de euros para os cinco anos de vigência dos contratos.

O primeiro lote, destinado a Azambuja Sede, tinha inicialmente um preço-base de 4.083.850,55 euros, enquanto o segundo, relativo aos polos, ascendia a 3.955.695,90 euros. Posteriormente, os valores máximos admissíveis foram revistos, passando para 3.727.378,18 euros em Azambuja Sede e 3.867.850,34 euros no segundo lote.

Em julho, o Valor Local noticiou que quatro novos médicos de família destinados ao concelho tinham sido colocados na Unidade de Saúde de Aveiras de Cima, passando a assegurar resposta às populações de Aveiras, Alcoentre e Manique do Intendente. O objetivo, já então anunciado pelo presidente da Câmara de Azambuja, Silvino Lúcio, era constituir em Aveiras de Cima uma USF modelo B, com uma equipa que poderia chegar aos seis ou sete médicos. Paralelamente, mantinha-se prevista uma USF modelo C em Azambuja, destinada a servir as populações de Azambuja, Vila Nova da Rainha, Aveiras de Baixo e Vale do Paraíso.

A constituição da USF modelo B em Aveiras de Cima terá, assim, dado azo a uma alteração dos planos inicialmente traçados, quando o concurso previa duas unidades modelo C.

A adjudicação agora conhecida, de 3.681.437,40 euros, fica cerca de 46 mil euros abaixo do preço máximo admissível posteriormente fixado para o lote de Azambuja Sede.

Knok nasceu na saúde digital e já gere uma USF-C

A entidade que chega agora a Azambuja apresenta um percurso diferente daquele que tradicionalmente se associa à gestão de uma unidade de cuidados de saúde primários. Fundada em 2015, a Knok começou por desenvolver a sua atividade sobretudo na área da saúde digital e da telemedicina, através de soluções de videoconsulta, acompanhamento remoto e ferramentas tecnológicas aplicadas à prestação de cuidados médicos. Entretanto, entrou diretamente na gestão presencial de cuidados de saúde primários.

Desde agosto, a empresa é responsável pela gestão da USF-C de São Pedro da Cadeira, no concelho de Torres Vedras, a primeira unidade deste modelo a entrar em funcionamento no país. A experiência assume particular interesse para Azambuja porque permite observar no terreno um modelo que é ainda praticamente desconhecido no Serviço Nacional de Saúde.

O Valor Local falou com o presidente da Junta de Freguesia de São Pedro da Cadeira, António José da Silva Alves, para perceber como estão a decorrer os primeiros meses de funcionamento. O autarca transmitiu ao jornal que o feedback que tem recebido relativamente à nova unidade é positivo e que a população se encontra satisfeita até ao momento, embora tenha ressalvado não dispor de informação sobre o número de médicos que diariamente se encontram ao serviço. Antes da entrada em funcionamento desta USF, este centro de saúde em causa não tinha médicos de família

A experiência é ainda recente e não permite retirar conclusões definitivas sobre a estabilidade das equipas ou a capacidade assistencial a médio e longo prazo, mas constitui já um primeiro indicador sobre o funcionamento do modelo que deverá agora chegar a Azambuja.

Empresa já está a recrutar médicos para Azambuja

A preparação da nova unidade está entretanto a avançar. A Knok tem divulgado ofertas de recrutamento dirigidas especificamente a médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar para a USF-C de Azambuja. A empresa admite diferentes modalidades de vínculo, incluindo contrato de trabalho e prestação de serviços. É precisamente a capacidade de recrutar e, sobretudo, fixar médicos que poderá constituir um dos principais testes ao novo modelo.

O caderno de encargos determina que a entidade contratada mantenha permanentemente uma equipa multidisciplinar composta por médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar, enfermeiros e assistentes técnicos.

Para Azambuja , está prevista capacidade de resposta para 9.081 utentes, além da obrigação de garantir atendimento personalizado, continuidade dos cuidados, utilização dos sistemas do SNS e um tempo médio de acesso a consulta inferior a cinco dias úteis.

Associação de Medicina Geral e Familiar já tinha alertado para dificuldades do modelo

As dúvidas quanto à capacidade de atração e fixação de equipas médicas não são novas. Em abril, quando o Valor Local analisou pela primeira vez em profundidade o concurso, o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Nuno Jacinto, chamou a atenção para a componente financeira do modelo.

Segundo o responsável, os valores previstos, entre 70 e 90 euros por utente, eram inferiores aos praticados nas USF modelo B e poderiam ajudar a explicar a ausência de candidaturas. “Isto não é competitivo para equipas médicas organizadas”, afirmou então Nuno Jacinto ao Valor Local.

O presidente da associação levantava igualmente uma questão de fundo sobre a sustentabilidade futura destas unidades. O receio passava pela possibilidade de uma entidade gestora poder deixar de considerar economicamente interessante a operação ao longo dos anos. “O que acontece se uma empresa decidir sair? Ficamos com a população sem resposta?”, questionava.

As declarações ganham agora uma nova dimensão com a chegada da Knok a Azambuja. A empresa já possui uma primeira experiência de gestão de uma USF-C em São Pedro da Cadeira e o feedback recolhido pelo Valor Local junto do presidente da Junta é, para já, positivo. Resta perceber como será constituída a equipa de Azambuja, quantos médicos estarão diariamente ao serviço e qual será o peso dos vínculos permanentes e da prestação de serviços na organização da unidade.

Determinante poderá ser o apoio do município de Azambuja, no futuro, à fixação de profissionais na futura unidade de saúde tipo c. Foram aprovados já em 2026 os seguintes valores mensais: mais 2000 euros para cada médico; mais 500 euros para cada enfermeiro; mais 200 euros para cada assistente técnico, mas para a USF tipo B. Ao Valor Local, Silvino Lúcio, acabou de confirmar que a Câmara não se compromete com incentivos financeiros para os profissionais que venham a integrar esta unidade – “A unidade será gerida por privados, como tal não cabe à Câmara”.

Concurso arrastou-se durante meses

O caminho até à adjudicação foi longo. Em abril, o presidente da Câmara de Azambuja revelou numa reunião do executivo que tinham concorrido seis entidades ao procedimento, encontrando-se então as propostas em análise. A investigação realizada nessa altura pelo Valor Local mostrou um universo muito heterogéneo de interessados, incluindo empresas ligadas ao recrutamento de profissionais, saúde digital e prestação de serviços médicos, além de operadores privados com estruturas clínicas instaladas.

Em agosto, quase cinco meses depois do encerramento das candidaturas, continuava sem ser conhecida qualquer adjudicação. A ULS Estuário do Tejo confirmou então ao Valor Local que o relatório preliminar do júri ainda não estava concluído. O nosso jornal apurou também nessa altura que, das seis entidades concorrentes, apenas duas cumpririam integralmente os requisitos estabelecidos no caderno de encargos, encontrando-se na fase final de apreciação.

Durante esse período chegou igualmente ao Movimento Cívico Pela Saúde em Azambuja informação segundo a qual a Teladoc Health seria a empresa escolhida e que essa decisão teria sido contestada por outro concorrente. Armando Martins, responsável pelo movimento, ressalvou ao Valor Local não dispor de documentação oficial que confirmasse essa informação. O próprio jornal não encontrou, nessa altura, qualquer anúncio de adjudicação nas plataformas oficiais. A adjudicação que agora consta da VORTAL surge, por isso, depois de vários meses de incerteza em torno do procedimento.

Presidente da Câmara ainda não foi informado

Apesar de a adjudicação constar da VORTAL desde 2 de outubro, o presidente da Câmara Municipal de Azambuja ainda não foi oficialmente informado do desfecho do concurso, Silvino Lúcio disse ao Valor Local que as últimas informações transmitidas pela ULS Estuário do Tejo se limitavam a indicar que o processo estava a avançar, sem que lhe tivesse sido comunicado o resultado final. A situação assume particular relevância atendendo ao envolvimento do município na área da saúde. Foi o próprio Valor Local que informou o autarca do resultado do concurso.

A Câmara tem responsabilidades relacionadas com as instalações dos cuidados de saúde primários, na sequência da transferência de competências. Além disso, a própria autarquia foi chamada a intervir numa fase anterior deste concurso. A preparação da nova unidade terá começado ainda antes da adjudicação agora publicada. Segundo o portal oficial de recrutamento da Knok, a empresa abriu uma vaga para médicos de família em Azambuja a 31 de agosto e outra para enfermeiros a 14 de setembro, indiciando que a organização da futura equipa clínica estava já em curso, semanas antes de chegar ao conhecimento público .

Valor Local aguarda respostas da Knok e da ULS

Há ainda várias questões por esclarecer. Quantos médicos estarão afetos à USF-C de Azambuja? Quantos estarão diariamente ao serviço? Quando começa efetivamente a funcionar a unidade? Os 9.081 utentes previstos ficarão com médico de família atribuído? Qual será a composição da equipa? E como será feita a articulação entre a nova USF-C, a ULS e a Câmara Municipal?

O Valor Local contactou a KnokHealth Portugal e a ULS Estuário do Tejo, solicitando esclarecimentos sobre a adjudicação, o início de funcionamento da nova unidade, a equipa médica, a população abrangida, as instalações e os restantes aspetos do procedimento. Aguardamos as respetivas respostas tendo em vista a nossa edição impressa, onde aprofundaremos este tema.

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