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“Vida Ribatejana” e a explosão de notícias de índole sindical

José Costa, historiador, apresenta-nos o que era a imprensa local de Vila Franca de Xira antes e depois da Revolução. O título mais marcante era o Vida Ribatejana, (jornal centenário que nos últimos anos passou a revista) a mostrar-se “adesivista” a ambos os regimes, como se “as duas realidades pudessem ser sequer semelhantes”. Houve uma adaptação mediante os tempos vividos. “O primeiro número sai depois do 1 de maio, e parecia que tinham sido democratas toda a vida” ironiza. O historiador nota que nos números que antecedem mais de perto o 25 de Abril são introduzidos temas sociais, se bem que numa lógica de “caridadezinha”. Falar da Guerra do Ultramar foi sempre proibido, nem mesmo para enaltecer os portugueses que iam lá para fora combater nas ex-colónias.

Mergulhando nos jornais dos anos 50 do Vida Ribatejana temos por exemplo a notícia da inauguração da Ponte Marechal Carmona desde há muito reivindicada desde o século XIX, que foi inaugurada apenas em 1951. “Nesse número o Governo foi enaltecido. Antes nunca se escreveu uma crítica. Dizia-se apenas que fazia falta”, ilustra. O jornal, reforça, foi sempre um paladino dos interesses do Estado Novo: “Ainda fez uma manifestação no início da ditadura, mas depois cingiu-se à realidade dos factos, e passou a ser um porta-voz das políticas do Estado Novo”. Um dos grandes acontecimentos locais durante os mais de 40 anos da ditadura “foi uma greve em 1944, em plena Guerra, contra a fome em que foi presa uma quantidade de gente e isso não foi notícia”. O próprio presidente da Câmara à época, José Van Zeller Pereira Palha, “era um grande teórico do Estado Novo a nível local e grande divulgador das suas políticas”. Já depois do 25 de abril são às dezenas as notícias que dão conta de greves e de plenários nas fábricas do concelho.

Os jornais e o Vida Ribatejana não era exceção levavam muito a sério temas “como as decisões do Governo ou as políticas corporativas” mas também “a vida das coletividades” já na década de 70 e claro está as notícias relacionadas com a Tauromaquia. Arriscava-se mais a nível nacional em que revistas como a Flama ou o Século Ilustrado “falavam de sexualidade” num contexto possível à época. A própria morte de Alves Redol (1969) é falada na imprensa nacional. “A figura dele foi tratada com muito respeito, porque era um homem muito abrangente. O tema da cultura popular era algo muito querido do regime e como ele tinha dedicado muito da sua vida às manifestações populares como o fandango, a música da Borda d’Água, a etnografia da Glória do Ribatejo, isso fazia dele uma figura à parte, apesar de ter sido perseguido”.

Durante todo o Estado Novo, “a pobreza do país e das pessoas é tratada como algo natural” também na imprensa. “Não eram escritos textos sobre as dificuldades dos trabalhadores. Nada aparece sobre a dita praça da jorna”. A própria passagem do general Humberto Delgado por Vila Franca por ocasião da eleição presidencial de 1958 “nunca saiu no jornal” nem tão pouco se escreveu sobre o Movimento Unidade Democrática, da oposição antifascista. A guerra colonial estava também arredada das páginas do Vida Ribatejana. “Vieram para cá os padres operários que organizaram uma procissão contra a guerra, a apelar à paz, com palavras do Papa Paulo VI e isso não veio no jornal”. “Mas nem a própria segunda guerra mundial era muito falada na imprensa nacional, só uma coisa ou outra”. Abafada foi também a tragédia das cheias de 67 que vitimou centenas de pessoas no concelho e na aldeia de Quintas principalmente – “Muitos jornalistas internacionais puseram a nu não só a catástrofe como a miséria do país”. “No primeiro ano das cheias, os jornais portugueses falavam da reconstrução e preferiram ignorar as marcas da tragédia em si”.

O concelho de Vila Franca teve largas centenas de presos políticos, “alguns até degradados para Timor”. No total todos acumulavam quase 600 anos de cadeia segundo o que o historiador conseguiu apurar. O próprio partido comunista fez neste concelho o seu primeiro comité local em 1933, data em que começou a trabalhar clandestinamente. “Infiltrou-se em tudo o que era associações fascistas desde coletividades até casas do povo”. Muitas vezes “o que se fazia em alguns desses locais era o desenvolvimento de atividades culturais que se distinguiam das oficiais através de serões de arte com poesia, música, teatro, e palestras com uma mensagem política tanto explícita como implícita” como aconteceu com Soeiro Pereira Gomes numa coletividade vilafranquense que “fez uma dissertação sobre a evolução do Universo”. Foi de imediato colocado numa lista das “pessoas que não se enquadravam na doutrina do Estado Novo”.

Já depois da Revolução e para além das muitas notícias com forte pendor sindical, era importante para as gentes de Vila Franca saber se haveria nesse verão o famoso Colete Encarnado e disso mesmo deu eco o jornal. Em julho de 74 lia-se “gloriosa queda do fascismo” no Vida Ribatejana. “Até parece que as pessoas que escreviam já não eram as mesmas de antes”, deduz José Costa que considera: “Como historiador vejo isso naturalmente, porque aquando do fim da Monarquia e a implantação da República deu-se exatamente a mesma coisa. Por exemplo termos caros ao republicanismo como ‘cidadania’, ‘culto cívico’ entraram logo na linguagem dos jornais”. O Vida Ribatejana foi fundado por republicanos. É visível que os conteúdos revolucionários entraram de rajada no jornal “porque tudo isto é como se de uma panela a ferver se tratasse, chega a um momento em que explode” e assim foi em toda a vida política, social, cultural e laboral no concelho.

Tínhamos notícias de habitações concedidas a famílias do bairro da lata; notícias sobre o facto de o Partido Socialista já ter sede em Vila Franca; ou um texto que dissertava sobre de quem eram as colónias portuguesas referindo que os africanos eram nossos aliados. Mais à frente no mesmo jornal tomamos conhecimento da publicação da carta de uma mãe de Benavente que teve um filho no Ultramar. Foram também notícia factos relacionados com a nova comissão administrativa da Câmara de Vila Franca de Xira e a ascensão a presidente da República do general Spínola. “De repente tínhamos em todo o concelho comissões de moradores, pessoas que queriam que se arregaçasse as mangas. Foi um espírito totalmente novo”. Passados 50 anos, podíamos hoje ser um país melhor e mais desenvolvido, questionamos o historiador. “Precisávamos de mais massa crítica, e de pessoas que exercessem mais a cidadania, sem ceder ao conformismo. Muitos antifascistas deveriam ser uma lição, porque lutaram sempre!”

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